Uma história pra lá de verdadeira!


Fui convidado para participar de um encontro entre pastores numa pequena cidade do interior de São Paulo. Iria falar sobre um assunto específico, sobre um tema que já tem me incomodado há um bom tempo: 

“Um novo jeito de ser e fazer igreja!”

Já era início da tarde e a viagem iria durar umas três horas e meia, no máximo.

Eu já estava com o pé na estrada, viajando de ônibus que, em minha opinião, tem a melhor combinação para ativar as boas ideias: o silêncio, a poltrona confortável, o leve balanço dos amortecedores e a exuberante paisagem do campo.

Tentava melhorar minhas respostas, uma vez que sempre me fazem as mesmas perguntas.

Tentava encontrar uma maneira de não desrespeitar os processos – uma falsa impressão que tenho deixado em minhas discussões.

Sonhava acordado com a possibilidade de conseguir apoio, mas já sabia das reações que, semelhante as perguntas que me fazem, são sempre as mesmas.

E a viagem que seria de algumas poucas horas, parecia ter durado apenas uns quarenta minutos. 

Rapidamente me levantei, peguei minha mochila e desci os degraus do ônibus. Para minha surpresa, havia alguém para me recepcionar. E apesar de nunca ter visto tal pessoa, parecia que já nos conhecíamos há um bom tempo.

Ele até me chamou pelo meu apelido:

  • Tropical! Bem vindo cara. Estávamos ansiosos para recebe-lo!
  • É mesmo? – perguntei meio surpreso.
  • Sim. Vamos logo – dizia me empurrando pelo ombro esquerdo! Quero te mostrar, ainda hoje, a rotina de nosso HUB!
  • Caraca!

Fiquei meio confuso com o que acabara de ouvir. 

  • Do que esse cara está falando? Será que eu ouvi direito? Enfim… – resmunguei baixinho.

Andamos de carro por mais um sete minutos e chegamos ao local. Era um prédio bem interessante pelo lado de fora, com bastante recuo da calçada e também nas laterais. A fachada tinha uma combinação de tijolos expostos, algumas varandas e grandes janelas de vidro. Tinha 3 andares e, na parte térrea, havia um café com algumas pessoas sentadas ao redor de diferentes tipos de mesas – alguns lendo e outros conversando e rindo. 

Percebi que a entrada do prédio era um enorme recuo ao lado desse café. Ou seja, não vi paredes nem portas, apenas três colunas que sustentavam a grande laje de concreto armado e todo o prédio.

Foi o que deu para eu ver antes de descermos a rampa que dava acesso ao estacionamento. 

  • Caraca!!! Esse lugar é demais. Mas porque paramos aqui? – eu perguntei.
  • Porque chegamos, ué!
  • Como assim? A igreja de vocês aluga algum auditório desse prédio? 
  • Não cara! Isso tudo é a igreja!
  • Tudo o quê? O café também?
  • Tudo! Todo o prédio. Deixe sua mochila ai e desça logo, pois quero te mostrar o resto. As pessoas também querem te conhecer.

Eu não estava entendendo nada. 

  • Como assim?!!!

Meu coração estava disparado.

Havia sido aguçada toda minha curiosidade masculina.

Sentia a mesma sensação de quando estou prestes a pegar uma grande e perfeita onda.

Subimos um lance da escada que ficava de par ao elevador. Saímos naquele vão que, há pouco tempo, eu tinha visto de dentro do carro. De frente a escada ficava um balcão de informações e alguns jovens. Andei um pouco mais para a direita e parei de frente a um grande painel eletrônico com diversas informações sobre o local. Fiquei ali por uns quarenta segundos e li informações sobre a abertura de um novo grupo para escola de artes, vi uma propaganda sobre o espaço de trabalho que ficava no terceiro andar e também a programação do auditório – dava horários e dias de cultos como também anunciava um musical infantil.

  • Que tal? – perguntou meu anfitrião.

A essa altura, como correndo a parede de uma onda perfeita, eu estava com vontade de gritar uns UHUUU!!!

  • Me conte mais! Me mostre tudo o que vocês têm por aqui.
  • Então… Como você já viu, aqui ao lado está nosso café, que é nosso cartão de visitas. O local é público. Todos que já vieram, sempre voltam, pois são bem atendidos. Nossos produtos são de ótima qualidade e é justo o preço cobrado. Um de nossos valores é SERVIR bem. Nesse mesmo piso térreo, só que lá ao fundo, está nosso auditório. Lá nós usamos como sala de cinema, como palco de espetáculos, como espaço informativo/educacional através de palestras e também para fazer os cultos organizados.
  • Tipo culto de domingo?
  • Não! Nós resolvemos mudar a dinâmica. Fazemos dois tipos de reunião. Uma mais inspirativa, com muita música e nada orquestrado [do tipo senta, levanta, abre, vire, cante, bata palmas, fale, etc…]; e outra mais reflexiva, com palestras sobre temas e fóruns para debates.
  • Isso dá certo?
  • Sim! Hoje em dia os jovens querem falar mais, debater e discutir temas de relevância social e prática. Da mesma maneira que querem sonhar e transcender através das mais variadas formas de artes. 

Enquanto tomávamos um ótimo café macchiato, ele me contou mais coisas sobre a dinâmica do tal auditório e das pessoas que frequentavam o local. 

Depois de me mostrar toda a estrutura do piso térreo, pegamos o elevador e subimos direto para o terceiro andar, na parte do HUB [um conceito de trabalho em que todos estão conectados, independente da profissão ou projeto]. 

Quando coloquei meus pés para fora do elevador, fiquei por quase dois minutos parado como uma estátua de olhos e ouvidos bem vivos. Parecia um espetáculo em que todos tocavam e dançavam numa harmonia quase perfeita. Haviam jovens debruçados, com o narizes enfiados em papeis que outros mostravam. Havia um grupo de seis jovens que discutiam sentados em poltronas e banquetas. Tinha muita gente concentrada e também alguns outros tirando um tempo para um pouco de distração criativa. O local era daqueles que inspiram pessoas a terem novas ideias. 

Perguntei:

  • Quem pode trabalhar aqui?
  • Todos os que quiserem, de alguma maneira, contribuir para redimir nosso mundo. Não importa o que vai fazer, nem o tipo de profissão, desde que se trabalhe com os valores da justiça do mundo de Deus, nosso SENHOR. Poderá ser com artes, saúde, educação ou política. 

Foi ai que me apresentaram projetos que estavam sendo desenvolvidos por pequenos grupos, como também algumas empresas que já atuavam em diferentes seguimentos. Todos alinhados em um único propósito.

Conversei com muita gente animada. Ouvi muitas coisas que jamais havia imaginado. Coisas de gente muito jovem e cheia de inquietações… 

  • Calma, calma e calma… – Disse eu. Pois precisava respirar para assimilar tanta coisa nova.
  • Então vamos descer as escadas para o andar debaixo. Quero te mostrar a nossa escola.

Achei melhor. Pois ficaria mais alguns dias por lá, o que me daria tempo de sobra para digerir, ver e ouvir mais coisas. 

  • Vamos descer! 

E quase nos últimos degraus da escada, tropecei feio.

Comecei a cair como que, em câmera lenta e, antes de chegar ao chão… 

ACORDEI!!!

Maldito buraco do alfalto que estava entre o ônibus e a entrada da feia rodoviária de meu destino.

Me fizera acordar de meu belo sonho.

Nem tive tempo para tentar dormir novamente e voltar ao paraíso. Tive que rapidamente pegar minha mochila e descer.

Lá estavam dois caras me esperando. 

Me levariam para o tal encontro de pastores que fui convidado para participar.

Levamos seis minutos para chegar no local da reunião.

Era um velho prédio que usavam como igreja.

Lá eles se reuniam em dias de culto e também em situações para tratar de como manter a igreja que já administravam.

Entrei.

Fomos apresentados.

Tomamos um café.

Comemos um pedaço de bolo.

Demos algumas risadas.

E a mesa, já começamos o debate!

Só que dessa vez foram mais rápidos que eu.

Começaram com as mesmas perguntas de sempre:

  • Como faremos para manter a igreja se não tomarmos os dízimos do povo?
  • Como manteremos esse local?
  • Como poderemos usar um espaço que não seja para fazermos reuniões e cultos?
  • Como pregaremos se não tivermos um púlpito e um auditório? 
  • E nós pastores, como viveremos se não tomarmos nossos salários da arrecadação da igreja?
  • Como será a comunhão?
  • E a ceia?
  • E os que não são convertidos, como podem servir aqui?

Blá, blá, blá…

Blá, blá, blá…

e

Blá, blá, blá…

Anacronismos! 

… 

Falei da possibilidade de novos formatos.

Usei argumentos sociológicos de comportamento e consumo.

De novas tecnologias.

Desafiei.

Discutimos valores bíblicos.

Falamos de ética.

Comparei nosso mundo com o mundo de Deus.

Etceteras mil…

Apenas me disseram ao final:

  • Você é um louco sonhador! 

Boas ondas!

Tropical

Etiquetas:, , , , , , , , , , , , , ,

7 comentários em “Uma história pra lá de verdadeira!”

  1. VILMA BRANDÃO 22 de Agosto de 2014 às 18:24 #

    CONHEÇA A IGREJA VIVA – PR. SEBASTIÃO ALMEIDA – AV. CORIFEU DE AZEVEDO MARQUES, 2089 – BUTANTÃ – SEU SONHO PODE SE TORNAR REALIDADE!!!

    • Tropical - AIRO 22 de Agosto de 2014 às 19:16 #

      Fala Vilma!
      Bem, se essa tal igreja é sustentável [quer dizer, gera seu próprio sustento com trabalhos de relevância social], se não toma dízimos e nem vive um modelo de liderança posicional, quero conhecer sim.

  2. Michele 22 de Agosto de 2014 às 18:37 #

    Cara, que droga que era um sonho.
    Estamos começando umas coisas joias aqui no RS.
    Vou tirar um tempo pra conversar contigo.
    Abração!

    • Tropical - AIRO 22 de Agosto de 2014 às 19:16 #

      Falae Michele! Pow! Vamos falar, pois quero saber das coisas jóias. abxx

  3. Bruno 3 de Setembro de 2014 às 14:33 #

    Tropical já dá para escrever um livro, o enredo fico muito bom! já é uma idéia sustentável! Existe uma muralha a se transpor para quebrar os paradigmas tradicionais das organizações eclesiásticas… Na linguagem do ciclo de vida da adoção de tecnologias você é um innovator e é com o tempo que virão os early adopters de suas idéias… veja essa ilustração http://cfs7.tistory.com/image/17/tistory/2008/10/02/10/13/48e4202c1b26d

    • Tropical - AIRO 3 de Setembro de 2014 às 14:43 #

      Pow Bruno! Comecei a falar de um novo modelo, parecido com esse que descrevi, em 2003. Naquela época não entendiam. Passados 11 anos ainda não entendem o COMO isso pode ser. De certa maneira, me sinto um frustrado, pois ainda não consegui construir uma estrutura. Até encontrei um cara que quase investiu, mas faltou coragem suficiente.
      Cara, vou insistir até o fim… E minha coerência, foi abandonar o velho modelo [atual], em 2006. Pow! Gostei da figura que me mandou [link] – vou usar. Obrigado.

  4. Gezz 8 de Setembro de 2014 às 23:39 #

    Saudades tropical! ehhehe

    Quando for à São Paulo vou te encher as paciências aí!

    Abraço!
    Fique na Paz!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Coletivo TraçaUrbana

o c o r p o e n t r e d o t e c i d o u r b a n o

De volta ao Manual

Pensamentos sobre o amor de Deus na vida cotidiana

projetosilva

Ukulele e Voz ,Letras Simples e Pensamentos Sinceros...

Don Charisma

because anything is possible with Charisma

Do Pensamento no Deserto

CRÔNICAS, ARTIGOS, ENTREVISTAS E IDÉIAS DE LUIZ FELIPE PONDÉ

Nelson Costa Jr.

" Ceci Est Un Dieu "

Marco Juric

Fotografia

Teologia Hermenêutica

Sobre os equívocos, exageros, métodos e possibilidades de interpretação teológica no pensamento cristão.

TROPICAL - AIRO

espiritualidade

Sandro Baggio

Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

A Bacia das Almas

Onde as ideias não descansam

espiritualidade

drnerium

Just another WordPress.com site

Uma pausa para o café.

Porque precisamos de uma pausa.

jonasmadureiradotcom.wordpress.com/

"Quebre os grilhões da cela, mas não se assuste se o prisioneiro não sair, talvez a cela seja absurdamente confortável."

Reino & Sacerdote

Trabalhando para que a Igreja cresça e que o Reino avance!!! Ap 1.5,6

%d bloggers like this: