Com respeito as autoridades [parte II]


Essa é a continuação do assunto sobre “autoridades”, iniciado no texto anterior.

De fato existem alguns outros textos do NT que falam sobre autoridade, mas há apenas dois textos que enfatizam a obediência e o dever de obedecer as autoridades: RM13.1-7 e TT3.1l

A questão agora está em saber que tipo de autoridade que estão falando – lembrando que não devemos esquecer que “toda autoridade pertence a Deus” – texto que os teólogos, a partir do século III, focaram bem sem considerar o contexto deles. Logo diziam: você precisa obedecer o poder como obedece a Deus. Hoje em dia a tal frase sai da boca de alguns que querem criar seus reininhos – mas é outro assunto.

Fato curioso é pensar nas dezenas de teólogos, defensores dessa idéia, que se complicaram nas épocas em que lideres tiranos, como Hitler, estiveram no poder. Nesse caso, como será que pregavam a obediência ou obedeciam?

Porém Calvino defendia uma idéia um pouco diferente dos demais. Dizia que um Rei é sempre legítimo, exceto se ele ataca a igreja.

Bem, o contexto da carta de Paulo aos Romanos trata da relação entre Judeus e Cristãos (do capitulo 1 ao 11). Oposição ao conformismo (cap.12), depois um longo ensinamento sobre amor entre os cristãos da igreja, por todos os homens e pelos inimigos (cap.12.3-21). Depois disso entra a questão do respeito as autoridades e o ensinamento sobre amor logo é retomado – todos os mandamentos se resumem nisso (cap.13.8-10).

Por fim, no capitulo 14, mais orientações especificas sobre conduta e a “prática” do amor.

Opa! Vale lembrar que Paulo e toda a igreja do primeiro século era unanimemente hostil ao estado, ao poder do império e às autoridades.

Nesse sentido Paulo tenta moderar a hostilidade dizendo algo como: “Lembrem-se que as autoridades também são seres humanos” (pois o conceito abstrato de estado não existia ainda).

Por isso que ele escreveu que era necessário “aceita-las” e respeita-las.

Mas há uma contradição na interpretação do que ele diz, que a todos devemos pagar o que é devido – a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra – se considerarmos que a honra esteja relacionada àqueles que são autoridades. Digo, honra do tipo “Ênio mandou…” – tá mandado. Vou obedecer senão cairei em desgraça. Pois o cara é líder – tenho que honrar [com medo] até o fim… E toda essa baboseira.

A contradição é porque sobre o assunto honra, Jesus disse: “Vocês não devem temor nem honra às autoridades e aos magistrados! O único a temer, o único a quem a honra é devida é Deus!”

Não devemos deixar de também considerar que existem fortes indicações de que os textos sobre respeito e oração pelas autoridades foram escritos na época da primeira perseguição Cristã por parte de Nero.

Por isso vale interpretar que Paulo (RM3), estivesse dizendo algo como: “vocês estão revoltados com essas perseguições, vocês estão prestes a se rebelar, mas, em vez disso, orem pelas autoridades. Pois a única arma que vocês têm contra eles é o clamor a Deus – somente ele pode restaurar a suprema justiça.”

Por fim, vale saber que a palavra empregada nos textos de Paulo é “exousiai” – “autoridades” – que no NT designa “poderes” de caráter abstrato, espiritual, religioso. Paulo chama atenção para lutar contra os “exousiai” que possuem seu trono no céu.

De outro modo, os textos do NT não poderiam deixar de entrever que as autoridades terrestres, políticas e militares têm, de fato, seu fundamento em uma relação com poderes espirituais – que podem ser maus e demoníacos.

Pode sim, ser que então Paulo tenha dito que as autoridades de sua época tenham sido instituídas por Deus. Por outro lado, todos os teólogos protestantes da época de Hitler diziam que o estado era demonizado.

Porém o texto mais importante sobre o assunto está numa das cartas do próprio Paulo. Ele declara: “[Cristo], despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz (CO2.15).

Isso sim é fundamental:

A CRUXIFICAÇÃO DO INOCENTE DESVELA A MALDADE DAS AUTORIDADES.

Isso faz total sentido para um cristão verdadeiro, mas para um não cristão, é verdadeiro escândalo o fato de Deus ter pedido a morte de um inocente. Pois não entendem que Cristo foi o único homem perfeitamente obediente a vontade de Deus, amando-O de modo absoluto, até o ponto de perder a si mesmo – e isso foi para seu próprio escândalo: “meu Deus, porque me abandonaste?”

Jesus até duvida de sua própria compreensão, mas não duvida da vontade de Deus.

Por isso que a cruxificação de Cristo é sua verdadeira vitoria sobre todos os poderes, celestes ou infernais. Pois ao amar a Deus além dos limites, despojou os principados e potestades de seu poder. Agora não existem mais demônios que resistam, não há mais “exousiai” independentes. São todos, a partir de então, subordinados a Cristo.

Eis o sentido dessa frase de Paulo, que mostra o quanto devemos relativizar a questão:

“Não há autoridade que não proceda de Deus” (sendo absolutizada). SIM! MAS TODA AUTORIDADE ESTÁ VENCIDA EM CRISTO!

Boas Ondas,

Tropical

Fontes: Bíblia Interlinear [Grego | Português] e Anarquia e Cristianismo – Jacques Ellul

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One Comment em “Com respeito as autoridades [parte II]”

  1. Gustavo 13 de Agosto de 2012 às 21:10 #

    Tropical, Eu diria que toda MALDADE existente nas autoridades está vencida em Cristo, pois “…conhecereis a verdade (acerca das autoridades) e a verdade vos libertará.”

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