Com respeito as autoridades [parte I]


Tem muita coisa que não faz muito sentido.

Dentre estas muitas coisas, algumas são as estranhas interpretações bíblicas.

Algumas dessas interpretações estranhas são resultado da falta de consideração exegética; uma vez que algumas de nossas traduções bíblicas só nos confundem mais.

Um bom exemplo é o texto que fala do julgamento de Jesus antes da crucificação.

Pilatos, que era o prefeito da província romana na Judéia, depois de mandar chicotear, também fica contrariado com o pouco caso de Jesus por não responde-lo na primeira pergunta. Logo em seguida ele dá a famosa carteirada: “Não sabe que eu tenho autoridade para liberta-lo e para crucifica-lo?” – JO19.10

Então, como queria Pilatos, Jesus responde: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima… JO19.11a

Bem, este é um dos textos que volta e meia ouço a citação da parte daqueles que defendem a idéia de que foi Deus que nos deu nossos chefes – em todas as ordens e escalas. Como escrevi no começo, tem muita coisa que não me faz muito sentido.

A defesa dos que acreditam nisso é bem simples e direta. Apenas repetem o texto da fala de Jesus que afirma a autoridade de Pilatos sobre ele. Sendo assim, dizem que Jesus estava legitimando tal autoridade como se fosse dada por Deus (“de cima’).

E para encerrar o assunto, os defensores dessa idéia usam a versão bíblica NTLH, da Sociedade Bíblica do Brasil, que escreve: “O senhor só tem autoridade sobre mim porque ela lhe foi dada por Deus.”

Bíblia por bíblia.

Versão por versão.

Argumento por argumento.

Sem nenhuma outra base de análise.

Razão sem nenhuma noção ou sentimento…

Conclui-se que realmente foi Deus que deu a autoridade a Pilatos… sobre Jesus… e ponto!

Não para mim!

Será que pelo menos leram a seqüência do texto que diz:

“Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior”.

Se Jesus reconhece que Pilatos recebeu seu poder de Deus, peço que me expliquem o sentido da segunda parte da resposta.

Em que seria culpado o que entregou Jesus, já que o entregou a uma autoridade vinda de Deus?

Enfim, no texto original não temos a frase “autoridade dada por Deus”, mas que consta na infeliz tradução da versão NTLH. O texto original é assim:

“Não terias nenhuma autoridade CONTRA mim, se não fosse dada a ti do alto”.

Autoridade SOBRE, quem vem de cima para baixo, sempre será um poder tirano – CONTRA.

A palavra “autoridade sobre” no texto original é katexousiaso. Quanto a este assunto, Jesus já havia reprovado esse modelo de liderança hierárquica quando os discípulos discutiam para saber quem seria o mais importante – Veja o texto de Mateus 20.25-29

Nesse texto, de acordo com Jesus, são os gentios que exercem a autoridade posicional – imposta. Ele governam, dominam e controlam pessoas. Mas entre nós, não deveria ser assim.

Logo, o poder de Pilatos não é SOBRE, mas CONTRA Jesus.

Jesus não o legitima.

Quanto ao outro ponto da questão, a frase: “… se não fosse dada a ti do alto” – ao invés de afirmarem que isso signifique que o poder venha de Deus, deveriam ao menos considerar uma interpretação histórica; ou seja, que o poder de Pilatos tenha vindo do imperador. Pilatos era apenas um prefeito provinciano. Ainda havia o jogo de empurra-empurra com Herodes, que era o governador.

Mas como escreveu Jacques Ellul [em Anarquia e Cristianismo], isso também não faria sentido algum. “Porque Jesus afirmaria a Pilatos que ele depende do imperador? O que isso tem a ver com a discussão deles?”

Depois de tudo isso, o que mais me faz sentido sobre tal assunto é um ponto que o próprio J. Ellul apresenta sobre a questão. Ele diz que Jesus teria dito a Pilatos algo como “seu poder sobre [contra] mim vem do espírito do mal.”

Isso corresponde à frase já reproduzida por Jesus quando responde aos chefes dos sacerdotes que “é o poder das trevas que opera no processo”.

Por fim, a segunda parte da resposta de Jesus a Pilatos é explicada:

“Tu deténs o poder do espírito do mal, mas aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior.”

Caraca!

O estado exerce sobre o povo um poder tirano – opressor. Basta observar a cobrança de impostos, juros abusivos ou coisa do tipo para saber que Deus nada tem a ver com isso.

Sugiro que também leiam:

Romano demais

Modelo bíblico de liderança

Moderno sistema clerical

Boas ondas,

Tropical

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8 comentários em “Com respeito as autoridades [parte I]”

  1. André Terra 5 de Agosto de 2012 às 19:29 #

    Pow tropical, show de bola…

  2. Leandro Barros 7 de Agosto de 2012 às 00:57 #

    Papo Reto! abs

  3. Gustavo 9 de Agosto de 2012 às 21:00 #

    Tropical,

    Boa observação, no entanto, creio que o ponto que o Senhor Jesus destacou na conversa com Pilatos é mais simples. Cristo deixou bem claro que Deus está no controle de tudo e mais do que isso, Sua crucificação estava e sempre esteve no planejamento (se é que podemos chamar assim) Dele e não havia nenhum governo na terra que poderia mudar isso. Cristo disse que Sua crucificação foi espiritual e não político. Deus ainda hoje tem tudo a ver com os governos na terra, não que Ele o constitua como era feito nos tempos de Davi, mas na verdade não há governo na terra que não seja concedido por Ele, uma vez que todo governo é fruto do comportamento de uma nação. Essa conversa com Pilatos não tem absolutamente nada a ver com hierarquia.

    • Tropical - AIRO 10 de Agosto de 2012 às 15:40 #

      Fala Gus, concordo que a resposta de Jesus com Pilatos vai além da questão de hierarquias. Mas não posso concordar que Deus tenha a ver com governos terrenos. Para mim seria a mesma coisa que afirmar que Deus tenha a ver com a o assassinato da esquina, etc. Pois isso nada mais é do que o reprovado comportamento humano.
      Ou melhor, explique o que vc quer dizer com “Deus tem a ver…”
      abx

      • Gustavo 10 de Agosto de 2012 às 16:32 #

        Exatamente isso. Os governos são PERMISSÃO de Deus e não CONSTITUIÇÃO de Deus. Deus permite como consequência do comportamento humano. Essa é uma verdade que principalmente os brasileiros não querem ouvir e que remete à palavra da semeadura, ou seja, os governos não são um mal isolado que acontece sem ninguém ter culpa de nada. Nada na terra acontece por acaso, se nenhuma folha de uma árvore cai sem Sua permissão, o que dirá um governo. A bíblia diz que nenhum governo na terra é constituído sem Sua permissão. Procurei essa palavra, mas não achei…dê uma procurada, você é melhor que eu nisso…rs. Se eu estiver aplicando isso errado, por favor pode me corrigir…Muito embora o que levou Cristo à cruz foi politicagem e “jogo de empurra” entre Herodes e Pilatos (o que mostra bem o comportamento humano), Jesus deixou bem claro que Sua crucificação não dependia de governo, aliás não estava nas mãos de governo algum assim como Ele disse que Seu reino é dos céus e não da terra quando questionado sobre a esperada libertação de Roma.

        • Tropical - AIRO 12 de Agosto de 2012 às 08:11 #

          Certo Gus.
          Vou pesquisar a palavra para depois escrever algo mais.

    • Márcia 2 de Dezembro de 2012 às 01:39 #

      Concordo. E a autoridade de cima foi dada a Pilatos, a Herodes, ao Governador, exatamente para que a Palavra de Deus se cumprisse. Vale lembrar: não cai uma folha da árvore, sem que seja do conhecimento/consentimento de Deus.

  4. Tropical - AIRO 13 de Agosto de 2012 às 19:24 #

    Gus, pesquisei os textos. Veja meu novo post – vlw

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