Progresso ou esperança? De que depende o mundo?


Gosto do texto da carta de Paulo aos Romanos, mais especificamente deste trecho:

Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Romanos 8:18-26 [NVI]

Não sou nenhum especialista, por isso seria bem vinda a ajuda de algum mestre.

Mas me arrisco em fazer uma síntese:

O homem é redimido por Deus em Jesus Cristo para redimir toda a natureza criada.

E a pergunta que cabe é esta:

O futuro desse mundo caótico depende de progresso ou esperança?

A idéia de progresso é simples. 

Ela diz que tudo deve se desenvolver para chegar a perfeição. Afinal, hoje somos parte de uma sociedade que é bem melhor do que foi no passado da história. Somos mais civilizados. Temos mais educação, as pessoas vivem mais e melhor, a tecnologia nos ajudou muito. Pois temos meios de transportes mais eficientes que nos ajudam a ganhar tempo. Também vale lembrar que as regras de convívio social se desenvolveram ao logo do tempo.

Segundo escreveu N. T. Wright, esta idéia de progresso teve seu florescimento na Europa do século 19, quando a combinação entre avanços científicos e econômicos de um lado, e as liberdades democráticas e a disseminação da educação de outro, produziu um forte sentimento de que a história estava caminhando a passos largos na direção de um alvo extraordinário, a paz mundial… No lugar da criação e da nova criação, a ciência e a tecnologia transformarão a matéria-prima desse mundo no material da utopia. Como o Prometeu mítico, desafiando os deuses e tentando governar o mundo por conta própria, o modernismo liberal crê que o mundo pode se tornar tudo o que desejarmos se nos empenharmos um pouco mais e ajudarmos a empreender a grande marcha a um futuro glorioso.

Essa idéia de progresso, apesar de seu florescimento ter sido há dois séculos, ainda tem grande força em nosso tempo. A utopia de um mundo melhor a partir do processo de desenvolvimento humano é, infelizmente, também o que muitos crentes acreditam. É também a partir daqui que nasce o que conhecemos como “evangelho social”. Porém se parássemos para analisar as coisas com mais atenção, perceberíamos que esse é o discurso do político.

Em síntese, o mito do progresso é que a organização de todo o cosmos emergirá de dentro da própria história [que o homem está], e não de outro lugar. Tudo dependerá de nós mesmos, de usarmos nosso potencial por meio da educação e esforço pessoal. Dentro desse contexto não entra a graça de Deus.

E a pedra de tropeço do mito do progresso é o problema do mal, pois ele não sabe como resolver algo que é próprio da natureza humana. Tal otimismo evolucionista tem se mostrado incapaz de resolver os problemas que resultam em guerras mundiais, aumento de criminalidade, tráfico de drogas, suicídios, famílias despedaçadas, moradores de rua, neuroses, corrupção, individualismo, etc…

Esperança!

Ao contrário de hoje em dia, os primeiros cristãos não acreditaram em progresso, nem num mundo que se tornaria melhor por si mesmo, nem que o mundo estava piorando, nem que Deus, por sua própria influência, melhoraria o mundo para que seus filhos pudessem viver. Note o que Paulo escreveu para os convertidos que viviam em Roma. Disse que toda a criação está sujeita e futilidade e decadência, aguardando com grande expectativa o momento em que os filhos de Deus sejam glorificados – isto é, quando acontecer conosco o que aconteceu com Jesus na Páscoa.

Também não acreditavam que o corpo fosse uma prisão e que por isso, o plano de Deus, seria a libertação da alma ou do espírito. A esperança era de que Deus tinha um plano de redenção para todas as coisas. Isto é, libertaria tudo o que estava escravizado pelo pecado. Tinha a ver com uma nova vida e um novo corpo. A esperança estava na ressurreição para vida em uma nova terra e um novo céu.

Por isso que Paulo é enfático ao afirmar que a ressurreição de Jesus era um sinal dos primeiros frutos de uma colheita e de que haveria muitos, muitos mais.

O homem que é justificado pela fé, tem como única esperança a ressurreição do corpo, para viver a nova criação de Deus, evidenciada em Jesus Cristo.

Isso é pura graça em oposição a qualquer tipo de otimismo evolucionista ou de progresso, que já sabe, a luz da ciência, que tudo está se desintegrando. Da mesma maneira que o homem, em seu corpo mortal, avança para sepultura, todo cosmos em seu atual estado de caos e dissolução, será transformado pelo Messias de Deus. Ou seja, ao contrário do que muitos acreditam hoje em dia, o cristão primitivo tinha esperança de que Deus redimisse todo o cosmos, não somente ao homem.

Ainda vale lembrar que, na teologia bíblica, o Deus vivo e único criou o mundo distinto dele mesmo. Significa que Deus e o mundo não são a mesma coisa e nem todas as coisas sejam parte de algo chamado Deus. Essa idéia é do panteísmo. Nada a ver com as Escrituras.

Enfim, sobre o assunto existem diversas passagens na Bíblia e também alguns bons livros. Minha sugestão é que leio o livro “Surpreendidos pela Esperança” de N. T. Wight.

Boas ondas,

Tropical

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4 comentários em “Progresso ou esperança? De que depende o mundo?”

  1. Filipe 17 de Fevereiro de 2012 às 18:22 #

    O progresso da humanidade é algo que discuti várias vezes com colegas de trabalho. Impossível se fugir disso quando se está na área da Engenharia Civil, especificamente com projetos de infra-estrutura.

    Ideias e projetos para novos transportes, novos modelos de organização social, novos recursos, etc. são bem interessantes na teoria. A tecnocracia, se implantada do modo como sua filosofia diz, melhoraria e muito a qualidade da vida na Terra. Hoje, sem muito esforço, conseguiríamos alimentar todos os habitantes do planeta e dar uma vida digna pra cada um. O medo, a desconfiança, a mesquinhez, o egoísmo, a indiferença, etc. fazem com que o status-quo seja mantido. Minha opinião é a de que o homem é incapaz e seria impossível progredir apenas com nossa educação e esforço; como você disse, “Dentro desse contexto não entra a graça de Deus.” É muito esforço por nada, já que somos mortais aqui. No entanto, penso que a esperança não deve anular o progresso; “vou sentar quietinho e esperar Jesus voltar” é tão mesquinho quanto não querer dividir o progresso com os necessitados. Acredito que o melhor seja gastar energia e tempo vivendo o amor de Cristo, com esperança nEle, de que um dia seremos restaurados e, até lá, trabalhar, na medida do possível, pra melhorar o que temos, que, afinal, foi dado por Ele.

    “Por isso concluí que não há nada melhor para o homem do que desfrutar do seu trabalho, porque esta é a sua recompensa.” Eclesiastes 3:22

    Também não sou mestre de nada, estou apenas jogando algumas ideias – que podem ser malucas, nesse caso me corrijam – pra discutir.

    Fique com Deus,
    Filipe.

    O comentário deveria parar por aqui, mas à nível de curiosidade, traçando a linha de previsão um pouco à frente, indo pelo caminho das várias hipóteses improváveis de que o homem “evolua”, eu só vejo uma coisa que pode acontecer com a sociedade em longo prazo: regresso. Individualismo total e fim do convívio humano e social; quem assistiu Wall-E, sabe do que estou falando. Objetivo alcançado? Acho que não, partir de um pressuposto de que melhorar a qualidade de vida seria ter mais tempo para a cultura, para o humanismo, para família, amigos, etc. e chegar nisso é o que chamamos de “tiro sair pela culatra”.

  2. Tropical - AIRO 17 de Fevereiro de 2012 às 18:35 #

    Caraca Filipe! Pegou o cerne da questão – muito bem vindo seu comentário. vlw

  3. Tropical - AIRO 17 de Fevereiro de 2012 às 19:01 #

    Se o progresso nos deu Hiroshima, não deve ser muito bom. Pela própria ciência, o cosmos não tem evoluído para um futuro dourado – começou com o big bang e caminha para direção do big cool down [gde resfriamento], com reservas de energia se esgotando e todo universo mergulhando num escuro e frio além da aniquilação total. Isso se antes, um meteorito gigante, como o que destruiu os dinossauros, não colida com a terra.

    Mas se alguém se opõe a derrubada das árvores para impedir a construção de rodovias ou cidades, usinas de energia, etc. diriam q ela é contra o progresso. Então “progresso” nem sempre tem o mesmo sentido que deveria ter. Como escreveu o tal NT Whight, o problema é que o progresso não sabe como lidar com o mal. Um exemplo é o da pornografia infantil que é ganhou muita força e alcance com a internet – como resolver isso?

    • Filipe 17 de Fevereiro de 2012 às 21:38 #

      Exatamente. Não sou contra o progresso humano, mas acho que quem lida com isso deve estar ciente que a questão não é apenas técnica. William Harthworth, um físico que participou do avança da bomba atômica nos EUA, põe isso da seguinte forma: “Nós estávamos encantados pelos avanços técnicos que conseguimos, enebriados pelos números. Nem pensávamos na relação entre ciência, técnica e política. Eramos apenas técnicos. Até vermos a bomba arrasando dezenas de milhares de vida e descobrirmos que não há ciência e técnica sem politica. Quem faz ciência e técnica achando que é neutro e isento, é ingênuo ou mal-intencionado”.

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