O moderno sistema clerical


Por Frank Viola

As Escrituras deixam claro que Jesus condenava as estruturas de liderança hierárquica e posicional. Mas o que pensavam Paulo e os demais apóstolos?

Ao contrário do que julga o entendimento popular, as cartas do Novo Testamento nunca definem os líderes da igreja em termos de “ofícios” e outras convenções sócios-organizacionais humanas.

Sempre que o Novo Testamento descreve pessoas que são primordialmente responsáveis por supervisão espiritual, ele o faz mencionando o trabalho que tais pessoas realizam. Há o predomínio de uma linguagem funcional onde os verbos são proeminentes.

Assim, pode-se ver que o moderno sistema clerical é um artefato religioso sem base bíblica. E virtude de sua pesada dependência de um único líder, este sistema tem permitido que o Corpo de Cristo seja reduzido a uma audiência. De fato, ele tem transformado a igreja em um lugar onde os cristãos assistem a profissionais se apresentarem. Assim, este sistema tem transformado a santa assembléia em um espaço para profissionais do púlpito desenvolverem suas habilidades com apoio com espectadores leigos.

Talvez a característica mais assustadora do sistema clerical seja o fato dele manter as pessoas que alegam servir na infância da vida espiritual. Por usurpar o direito dos cristãos de ministrarem de um modo espiritual durante os ajuntamentos, o sistema clerical acaba debilitando o povo de Deus mantendo as pessoas fracas e inseguras.

Sem dúvida, muitas – se não a maioria – das pessoas que abraçaram a profissão clerical amam o povo de Deus e desejam servi-lo. Muitas delas desejam sinceramente que seus irmãos e irmãs em Cristo assumam maior responsabilidade. Numerosos clérigos já manifestaram sua frustração por não verem suas congregações assumirem mais responsabilidade. Mas poucos deles rastrearam o problema de volta até sua origem, a saber: suas próprias profissões.

A profissão de clérigo é responsável pelo enfraquecimento e desmantelamento do sacerdócio dos santos. Independentemente do quão controladora a pessoa que preenche a posição de clérigo seja, este é sempre o caso. É assim que funciona: uma vez que os clérigos carregam a carga de trabalho espiritual, a maioria da igreja se torna passiva, preguiçosa, autocentrada [“cuida de mim”] e engessada em seu desenvolvimento espiritual.

Tão sério quanto o quadro descrito acima, é o fato de o sistema clerical causar enorme dano àqueles que ocupam posição. A razão? Deus nunca chamou ninguém para carregar sozinho o fardo de ministrar toda a igreja. Mesmo assim, não obstante, as tragédias que a posição clerical engendra, as massas continuam a confiar nelas, defendendo-a e insistindo com ela. Por essa razão, o assim chamado laicato é tão responsável pelo problema do clericanismo quanto o são os próprios clérigos.

A verdade seja dita, muitos cristão preferem a conveniência de pagar alguém que carregue nos ombros a responsabilidade pela ministração e pelo pastoreio. Segundo acreditam, é melhor contratar um especialista religioso para atender as necessidades do povo de Deus do que se incomodar com as demandas autoesvaziadoras do serviço ao próximo e do cuidado pastoral.

Objetivamente, o moderno sistema clerical… coloca o organismo vivo, que é a igreja, em uma camisa de força veterotestamentária.

Um clérigo não precisa ser um déspota para dificultar o ministério mútuo entre os crentes. A maioria deles é constituída de cristãos bem intencionados e capazes que acreditam ter sido chamados por Deus para a profissão que abraçaram. Muitos, porém, são ditadores benevolentes. E alguns são tiranos espirituais que aprisionam e congelam a vida de suas congregações com suas buscas maquiavélicas por poder.

A verdade é que os clérigos não necessitam fazer mau uso da autoridade que lhes é atribuída para causar dano a vida do corpo. Pois a mera presença de uma liderança hierárquica do tipo um-sobre / um-sob, elimina a possibilidade de exercício de mútuo ministério. Isto é verdade a despeito de quão não autoritário a pessoa do clérigo seja.

A mera presença do clérigo tem efeito mortífero de condicionar a congregação a ser perpetuamente dependente. Desde a infância, os cristãos são ensinados que pastores [e sacerdotes anacrônicos] são especialistas religiosos. Eles constituem aqueles com qualificação para lidar com as coisas “espirituais”, enquanto todo mundo também é chamado ao trabalho secular. Por vê-los como especialistas religiosos, o restante da congregação se vê como passivos receptores.

Como diz Christian Smith: “O problema é que, a despeito do que nos digam nossas teologia sobre o propósito do clero, o efeito real da profissão clerical é a deformação do corpo de Cristo. Isso acontece não porque os clérigos tenham tal intenção [em geral, eles querem o oposto], mas porque a natureza objetiva da profissão inevitavelmente transforma os leigo em receptores passivos.”

O crente comum provavelmente não tem a consciência de que sua concepção de liderança foi moldada por séculos de história eclesiástica [cerca de mil e setecentos anos]. Por esta razão, o conceito de clero é tão entranhado em nosso pensamento que qualquer tentativa de desviar-se dele, provavelmente encontrará uma forte oposição.

Muitos cristãos modernos são tão contrários à idéia de desmantelas o clero como o são os próprios clérigos. As palavras de Jeremias são pertinentes: “Os profetas profetizam mentiras, os sacerdotes governam por sua própria autoridade, e o meu povo gosta dessas coisas” – Je 5.31. Em síntese, clérigos e não clérigos, são responsáveis pelas doenças da igreja atual.

A verdade é que muitos de nós – como Israel no passado – ainda chamamos por um rei que governe sobre nós. Queremos um mediador visível que nos diga o que “Deus disse” – Ex 20.19; ISm 8.19. A presença de um mediador humano em uma igreja é uma estimada tradição com a qual muitos cristãos estão impetuosamente comprometidos. Mas ela não se incorpora às Escrituras. E, em minha opinião, ela impede o livre funcionamento e o pleno amadurecimento do corpo de Cristo.

Trecho retirado do capítulo “Reimaginando liderança” do livro Reimaginando a Igreja de Frank Viola.

frankviola.org

Comprar o livro

Etiquetas:, , , ,

Trackbacks/Pingbacks

  1. Não entenderam nada | Tropical – AIRO - 10 de Janeiro de 2012

    […] O moderno sistema clerical […]

  2. Com respeito as autoridades | Tropical – AIRO - 5 de Agosto de 2012

    […] Moderno sistema clerical […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Coletivo TraçaUrbana

o c o r p o e n t r e d o t e c i d o u r b a n o

De volta ao Manual

Pensamentos sobre o amor de Deus na vida cotidiana

projetosilva

Ukulele e Voz ,Letras Simples e Pensamentos Sinceros...

Don Charisma

because anything is possible with Charisma

Do Pensamento no Deserto

CRÔNICAS, ARTIGOS, ENTREVISTAS E IDÉIAS DE LUIZ FELIPE PONDÉ

Nelson Costa Jr.

" Ceci Est Un Dieu "

Marco Juric

Fotografia

Teologia Hermenêutica

Sobre os equívocos, exageros, métodos e possibilidades de interpretação teológica no pensamento cristão.

TROPICAL - AIRO

espiritualidade

Sandro Baggio

Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

A Bacia das Almas

Onde as ideias não descansam

espiritualidade

drnerium

Just another WordPress.com site

Uma pausa para o café.

Porque precisamos de uma pausa.

jonasmadureiradotcom.wordpress.com/

"Quebre os grilhões da cela, mas não se assuste se o prisioneiro não sair, talvez a cela seja absurdamente confortável."

Reino & Sacerdote

Trabalhando para que a Igreja cresça e que o Reino avance!!! Ap 1.5,6

%d bloggers like this: