A tirania da felicidade


Por Ed Rene Kivitz.

Para quem acredita que tem a obrigação de ser feliz

Vivemos hoje o que se poderia chamar “a tirania da felicidade”. Ser feliz virou uma obrigação. O consenso diz que a felicidade é o objetivo maior da humanidade. Pascal Bruckner, ensaísta francês, autor de Euforia perpétua (Rio de Janeiro, DIFEL, 2002) analisa que esse fenômeno ocorreu “depois de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer.”[i] Desde então, a felicidade, “mais do que o dinheiro, é a nova ostentação dos ricos. Eles estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa extraordinária, seu sucesso social, financeiro ou mesmo moral, quando colaboram com instituições beneficentes. A felicidade virou parte da comédia social.”[ii]

Swami Adiswarananda, monge da Ordem Ramakrishna, atualmente dirigente do Ramakrishna-Vivekananda Center of New York, denuncia nossa sociedade dizendo que “a felicidade é o objetivo da busca eterna e universal que vem ocupando a mente humana desde os primórdios da criação. As pessoas podem diferir em suas perspectivas políticas e religiosas, filosofias de vida, perfis psicológicos, cultura e raça, mas todos, sem exceção, querem ser felizes. A felicidade é a meta do pobre e do rico, do erudito e do ignorante, do santo e do pecador, do ateu e do crente, do ascético e do indulgente. É por causa da felicidade que aspirantes espirituais oram, trapaceiros trapaceiam, açambarcadores açambarcam, caridosos entregam-se à caridade, bêbados bebem, ladrões roubam e penitentes se arrependem. Almejando felicidade uns se casam, outros se divorciam, alguns cometem suicídio e outros se tornam homicidas. E no entanto, a perseguição à felicidade resulta numa tentativa caótica, absurda, infrutífera. Ninguém tem certeza de como alcançá-la. Nenhum ramo de estudo nos trouxe qualquer conhecimento a respeito do segredo da felicidade. A religião enfatiza a salvação e a filosofia, a busca da verdade. Os moralistas falam a respeito do dever e os psicólogos nos pedem que enfrentemos e convivamos com a infelicidade. Os cientistas pouco se importam com nossos sentimentos e os economistas dão valor tão-somente à riqueza e prosperidade. Nenhum deles se dedica ao problema da felicidade. Em busca da felicidade as pessoas freqüentemente se comportam de forma estranha. Alguns ficam felizes quando os outros estão felizes, alguns são felizes quando os outros são infelizes e existem até mesmo aqueles que são felizes quando eles próprios são infelizes. Uns têm esperança de comprar a felicidade enquanto outros há que tentam usurpá-la do próximo. Há aqueles que buscam alcançar a felicidade através do domínio, pelo poder; outros, no apego às coisas. Desta forma, estamos todos, constantemente, perseguindo a felicidade ao invés de sermos felizes. Não admira, portanto, que nasçamos chorando, vivamos nos lamuriando e morramos frustrados.”

A sociedade contemporânea vive à luz de um único mandamento: “Serás feliz”, que traduzido é “buscarás estar satisfeito com tudo o tempo todo”. Este único mandamento se decompõe em três outros sub-mandamentos.

#1 Eliminarás todo sofrimento

• Negarás a dor
• Fugirás do desconforto
• Evitarás os fracassados
• Rejeitarás tudo quanto não te prazer

#2 Satisfarás todos os teus desejos

• Conquistarás o máximo
• Buscarás o prazer acima de tudo
• Não passarás vontade
• Correrás atrás de todos os teus sonhos
• Não te sacrificarás por nada e ninguém

#3 Realizarás o pleno potencial

• Serás sempre o melhor
• Viverás sempre apaixonado
• Terás filhos perfeitos
• Prosperarás sempre
• Andarás sobre as águas

Em síntese, “farás de tudo para apareceres na Revista Caras”, ou se preferir, já que esta possibilidade é distante para a maioria de nós, “viverás como se estivesses no mundo de Caras”. Para que isso seja possível, “construirás uma imagem de sucesso”. Isso mesmo, pois a imagem é a única alternativa que nos resta. Por que? Porque em nossa sociedade “o simulacro é vendido como verdadeiro, a representação como apresentação. Aquilo não está presente, está representado e produz ansiedade, frustração e desespero”.[iii] A felicidade conforme ostentada hoje nas revistas, telenovelas, talkshows e programas de auditório, é uma farsa.

Colocando os pés no chão, encontramos o conceito judaico-cristão da bem-aventurança, a expressão bíblica que mais se aproxima do ideal contemporâneo de felicidade. As palavras usadas na Bíblia foram ashréi, no hebraico, e makarioi, em grego. Ashréi é a primeira palavra dos Salmos 1 e 119, e também pronunciada por Jesus nas bem-aventuranças, que os lingüistas gostam de traduzir por “felizes”. Na verdade, esta tradução reflete “suas tendências apologéticas e sincretistas: a filosofia grega, pensavam, não é a única a poder propor ao homem o ideal hedonista da felicidade.”[iv]

“Ashréi repete-se 43 vezes na Bíblia hebraica. Esta exclamação (no plural), tem como radical ashar, que não evoca uma vaga felicidade de essência hedonista, mas implica uma retidão (yashar) do homem marchando na estrada sem obstáculos que leva a Iahveh e, aqui [no sermão do monte] em direção ao reino de Iahveh. Todos os dicionários etimológicos do hebraico bíblico dão como primeiro sentido ao radical ashar o de marchar; ser feliz é um sentido secundário e tardio. O sentido fundamental de ashar é “andar”, “conduzir por uma via reta”. Em linguagem poética, ashur é o pé do homem. Ashréi pontua a dinâmica da salvação introduzida na vida do homem em marcha em direção ao Reino de Iahveh. A participação na felicidade de Deus, em que consiste a bem-aventurança perfeita, está acima e além das capacidades do homem em sua condição terrestre.”[v]

Em termos práticos, podemos demonstrar a estupidez do mandamento e sub-mandamentos da sociedade contemporânea à luz do conceito de bem-aventurança, como segue.

#1 Eliminarás todo sofrimento

Sabemos que isso não é possível. A tradição cristã, ao falar da esperança do céu no pós-morte, ensina que “os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” e que “os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles”, mas isso não nos exime da dor momentânea e da convivência com o sofrimento no tempo presente, pois “toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo”. Vivemos o “já e ainda não” do Reino de Deus, e toda expectativa de viver sem sofrer é ilusória e será frustrada, pois a vontade de Deus ainda não feita “assim na terra como no céu”.

Will Ferguson, em seu romance Ser Feliz©, denuncia a insensatez de uma sociedade feliz, sem contradições e contrariedades. Conta a história de Edwin De Valu, que edita um best-seller de auto-ajuda e alastra uma praga devastadora pela humanidade: a felicidade. O romance é um primor, que desmascara esta mitologia da realização pessoal e advoga a necessidade de aprendermos a conviver com a incompletude e imperfeições inescapáveis à condição humana. Com um humor impar, Ferguson diz que “se, um dia, alguém escrevesse um livro de auto-ajuda que realmente funcionasse, que sanasse nossos infortúnios e eliminasse nossos maus hábitos, os resultados seriam catastróficos”.[vi]

#2 Satisfarás todos os teus desejos

Há quem diga que o ser humano é infeliz na medida que não realiza seus desejos. Mas a verdade é que quando seus desejos se realizam ele se torna infeliz de novo. Primeiro, porque percebe que ainda não está satisfeito. Depois porque tem medo de perder o objeto adquirido. E à proporção que novos desejos surgem, prossegue sua infelicidade. Desejos criam fantasias e as fantasias não têm fim, bem como os desejos que lhe dão origem.

Por esta razão Oscar Wilde diz que “neste mundo só há duas tragédias – uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. Shopenhauer disse a mesma coisa de outra maneira: “A vida oscila pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio”. André Conte-Sponville esclarece: “sofrimento porque desejo o que não tenho e sofro esta falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo”.[vii] Viver para satisfazer desejos é uma tolice tão grande quanto enxugar gelo.

#3 Realizarás o pleno potencial

Acreditar que tudo pode atingir seu máximo grau de perfeição é uma herança que Lúcifer legou à humanidade. A Bíblia ensina que a aspiração da perfeição é um pecado, e na verdade, a mera crença na possibilidade da perfeição humana já é uma ofensa contra Deus.

A perfeição possível deste lado do céu, enquanto nossa redenção não está consumada, é melhor traduzida como coerência. Paulo, apóstolo, escreve aos cristãos da cidade de Filipos encorajando-os à perfeição. Ao fazê-lo, aparentemente cai em contradição, pois no mesmo instante em que afirma estar longe da perfeição, se diz perfeito. O que ele está dizendo é que devemos viver de acordo com que o que já sabemos, o que já aprendemos, o que já alcançamos. Ele não propõe a perfeição em termos absolutos, mas espera que todos se esforcem para ser e fazer o melhor possível.

“O Kant [filósofo, 1724-1804] usa uma idéia de felicidade como a estrela polar que, para o navegante, é só a referência. Ele não quer chegar à estrela polar, nem chegará. É utopia, portanto. A sabedoria não está em recusar o horizonte e se aquietar, mas em saber que você é um ser de busca, e não de encontro.”[viii]

Conclusão

O primeiro passo, portanto, na direção da felicidade é o desmascaramento da felicidade conforme proposta pela sociedade contemporânea. Nas palavras atribuídas a Mário Quintana, a escolha de uma “felicidade realista”, como ele mesmo descreveu:

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormentam e provocam inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

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