Homem deus


O desejo de Deus, em Jesus Cristo, não é que o homem se torne igual a ele? O pecado original não é o fato do homem querer se tornar igual a Deus?- Tropical

Por Gilles Drollet
No estudo das profundezas humanas, constatamos que cada ser humano gostaria de ser seu próprio centro: ninguém quer se realizar com Deus. O exercício de uma liberdade do homem se orienta em direção a uma recusa. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ser deuses por nós mesmos, é sempre sedutor de se comer.
Essa atitude fundamental de fechamento se encontra no homem de todos os tempos, e talvez ainda mais no homem de hoje. Quantos gurus nos pregam a salvação do homem pelo homem! Isso se manifesta de diversas maneiras: colocar-se em relação com a Energia Cósmica, alcançar a iluminação, desenvolver a potência do subconsciente ou o poder da mente para conseguir curar todas as doenças [no meu prédio está a maior onda de meditação ioga – meditação: busca da paz pelo controle da mente…], fazer-se congelar para obter da ciência uma vida sem fim, ou mesmo querer decidir por si mesmo aquilo que é o bem e aquilo que é o mal… De todas as maneiras, numa fuga sem direção, sempre buscando em puro lugar, aquilo que poderia levar a realização, mostramos como somos radicalmente fechados para Deus.
Tal é o mal fundamental, o pecado original e sempre atual descrito no cenário de Gênesis 3.
É muito importante compreender que Deus, tal como ele é apresentado no Gênesis, quer que nos tornemos como ele, o que se confirma ainda mais na perspectiva cristã. François Varillon expressou muito bem esta idéia:
Deus se tornou homem para que o homem se tornasse Deus. Duas verdades são necessariamente correlativas: a encarnação de Deus e a divinização do homem. Isto é absolutamente tradicional, é o núcleo da fé! Se vocês me perguntarem o que é o homem, eu lhes responderei isto: o homem é algo que pode se divinizar. O mistério de todo homem, o sentido do homem, o significado da vida humana, é a atitude essencial do homem com vistas a se tornar aquilo que Deus é.
Freqüentemente chega-se a perguntar: “Não é precisamente o querer se tornar igual Deus o pecado original?” Aqui repouso o terrível equívoco: sim, o pecado original é o de pretender por suas próprias forças se tornar o que Deus é. Mas o que não é o pecado original e que até é essencial da fé, é que devemos acolher este dom absolutamente singular de nossa divinização. Seremos perfeitamente homens somente quando formos divinizados.
Karl Rahner também escreveu:
O cristianismo possui uma envergadura infinita. Londe de se perder nos detalhes, ele diz apenas uma coisa: a plenitude absoluta de Deus, que está além de toda idéia, de todo limite e de toda linguagem, introduziu-se por si mesma e sem reservas no coração de sua criatura, a fim de lhe conferir, se apenas esta o permitir, sua própria glória.
O projeto de Deus é a realização do homem, sem limites humanos. Mas a tentação, que é o lugar onde pode residir o pecado, o pecado mortal, é a de que querermos nos realizar sozinhos, sem relação com Deus.
Na verdade, a fé não é natural, nem a conversão. O que é natural é o desejo de nos mantermos centrados sobre nós mesmos. A fé e a conversão exigem um arrebatamento de nós mesmos. Converter-se é transformar-se completamente, mudar o foco do olhar, descentralizar-se. Para Jesus, isto eqüivale a perder a própria vida para a reencontrar, ou se tornar como as crianças. Estas duas expressões vão contra a corrente natural do ser humano, que quer se estabelecer por si mesmo e viver independente.
Evidentemente a questão do pecado original foi retomada em todos os sentidos no decorrer dos 2000 anos de história da Igreja e “é preciso convir que a abordagem [e não o dogma definido] clássica e tradicional do pecado original não é mais admissível na problemática de hoje”.
Como toda narrativa mítica, Gênesis 3 possui um alcance universal. A descrição da tentação, na qual o homem e a mulher querem se tornar como deuses por si mesmos, representa a tentação e o pecado de toda humanidade, desde o início até o fim dos tempos.
Querer realizar sozinho: tal é o significado do fruto da árvore do conhecimento…

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