As duas glórias


Uma vez ouvi a expressão “pastor de palavras”. Achei bom demais!

Mas se hoje em dia existe mesmo algum pastor de palavras, eu gostaria que me apresentassem o tal. Tentaria leva-lo a mil lugares para tentar resgatar o valor e a essência de cada uma delas. Palavras e mais palavras usadas de modo displicente, sem cuidado… ignoramos seus significados e as entregamos ao reducionismo cultural/religioso. Em minha opinião, se perdermos de vista o sentido e essência de cada termo, perderemos também o propósito, que por sinal pode ser entendido como finalidade. Uma palavra pode ter mais do que um significado, pode ter vários sentidos, pode inclusive perder todo sentido para se tornar um preceito humano e cultural. Mas ainda que uma única palavra tenha muitos significados diferentes, os quais interesso-me para conseguir entendimento, tento também buscar o sentido, quero dizer, encontrar a essência do termo que emprestará sentido às coisas. Em alguns casos, para resgatar a essência de palavras, é necessário responder o “por quê” da própria vida. É preciso lançar-se sobre a história de um homem que veio para dar sentido ao que se perdeu: Jesus Cristo de Nazaré, o Filho do Homem que teve a vida mais inspiradora de todos os tempos. A Palavra que se tornou gente para fazer do sentido um indivíduo – da criação e história, uma comunidade.
Agora, gostaria de escrever sobre uma única palavra: “glória” – Apesar de ser uma palavra cheia de significados, tornou-se empobrecida pela ganância e vaidade do próprio homem.
“Gloria” é uma palavra cheia de luz transbordando de esplendor extravagante que marca a presença de Deus em nós. Também é usada para atribuir honra, dignidade e “peso” das montanhas, a condições do tempo e a homens e mulheres, porém seu uso mais proeminente nas escrituras se dá em relação a Deus. “Ninguém jamais viu a Deus” [Jo1:18], mas vemos sua glória , o resplendor fulgurante que marca a presença de Deus em nossa dimensão, aqui e agora: no Sinai, no tabernáculo, no templo e, acima de tudo e de modo mais pessoal, EM JESUS: “E vimos a sua glória como a do unigênito do Pai” [1:14]. E. H. Peterson
À partir dai, se eu tivesse a capacidade de escrever um dicionário, escreveria na frente da palavra glória, além de honra, fama, celebridade, adquirida por obras, feitos, virtudes, talentos, homenagem… escreveria, acima de tudo, que glória significa A VIDA DE DEUS, presente e manifesta em Jesus Cristo, estendida para dentro de nós através do Espírito Santo.
Mas o sentido se perdeu do pastor que agora nem das palavras ele consegue cuidar. Hoje em dia a glória dos homens ganhou espaço nos lugares em que não estava convidada a entrar. E então o homem honrado passou a ser aquele que em pouco tempo ganhou notoriedade pela fama e, igual a uma celebridade conta-nos sobre suas virtudes que resultaram em grandes feitos. Este cara ama o reconhecimento, as grandes platéias, as homenagens, os bons lugares, os benefícios e também as cidades ricas. Se não bastasse, ele ainda percorre o mundo procurando fazer de um prosélito duas vezes mais merecedor do inferno do que ele próprio. Mas até ai, tudo bem. Afinal de contas é esta a glória dos homens de uma única natureza, a humana. Porém, àqueles que se decidiram para serem chamados de cristãos, não do contexto de cristianismo duma cultura ocidental, mas para se parecerem com o próprio Cristo, esta glória humana deveria ser deixada de lado para cair no esquecimento.
Mas qual é a glória do Filho de Deus?
À partir de Jesus, a palavra “glória” deve ser reconceituada, recebida e assimilada conforme ele nos mostra: “um Jesus que não impressiona, um Jesus que sofre, é rejeitado, escarnecido, pendurado numa cruz, e – a afronta final e irrefutável – morto e sepultado. Tudo isso está incluído no conteúdo de “e vimos a sua glória… No eixo central de seu evangelho, João apresenta a declaração mais expressiva e crítica, e também mais desconcertaste, sobre glória. Jesus antevê sua morte iminente. Ele diz: É chagada a hora de ser glorificado o Filho do Homem…”. E. H. Peterson
O trigo/homem deve primeiro morrer para depois produzir frutos. Não existe fruto sem que primeiro haja morte. Os que ainda não morreram para si, consequentemente para a glória humana, não produzem frutos, mas enganam-se pelo inchaço –  o mesmo de uma semente podre e doente.
Na verdade, de maneira explicita, a glória – o resplendor da presença de Deus, bem aqui em nossa terra, sem dúvida tem tudo a ver com a morte e o sepultamento iminentes a Jesus. Precisamos reaprender algumas coisas sobre etimologias e definições. Jesus pega a palavra glória, que define resplendor em nosso vocabulário e lança na cova mais profunda da experiência, a morte violenta e excruciante.
Tudo o que sempre aprendemos sobre glória precisa ser remodelado. A igreja precisa deixar de dissimular a palavra glória com substitutos respeitáveis como, aceitação, honra, sucesso e “relevância”.
Para finalizar o texto – não o assunto – colocarei mais um texto do Sr Eugene H. Peterson: A figura de Jesus, em conjunto com seu sacrifício imediatamente subseqüente, é totalmente contrária à nossa cultura de buscar cada vez mais. Seria possível Jesus deixar isso mais claro? Não nos tornamos mais, tornamo-nos menos. Em vez de nos agarrarmos com mais força àquilo que valorizamos, soltamos. “Quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salva-la-á. Bem aventurado os humildes de espírito”, foi outra forma que Jesus usou para expressar essa realidade.
“porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.” (JO12:37-43)
Boas ondas,
Tropical

Etiquetas:,

One Comment em “As duas glórias”

  1. discusioninteligente 29 de Outubro de 2010 às 22:45 #

    >Cara…que blog! Muito bom, com muita clareza do que agora e mais importante pra os cristãos….recuperar o sentido verdadeiro de palavras como "gloria", "evangelho", "graça", etc. Acho que agora a gente esta no meio de uma guerra de ideias e de "semântica", e a única regra pra definir termos clave como "gloria" é a Bíblia mesma lida com os óculos da Cruz e o Evangelho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Coletivo TraçaUrbana

o c o r p o e n t r e d o t e c i d o u r b a n o

De volta ao Manual

Pensamentos sobre o amor de Deus na vida cotidiana

projetosilva

Ukulele e Voz ,Letras Simples e Pensamentos Sinceros...

Don Charisma

because anything is possible with Charisma

Do Pensamento no Deserto

CRÔNICAS, ARTIGOS, ENTREVISTAS E IDÉIAS DE LUIZ FELIPE PONDÉ

Nelson Costa Jr.

" Ceci Est Un Dieu "

Marco Juric

Fotografia

Teologia Hermenêutica

Sobre os equívocos, exageros, métodos e possibilidades de interpretação teológica no pensamento cristão.

TROPICAL - AIRO

espiritualidade

Sandro Baggio

Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

A Bacia das Almas

Onde as ideias não descansam

espiritualidade

drnerium

Just another WordPress.com site

Uma pausa para o café.

Porque precisamos de uma pausa.

jonasmadureiradotcom.wordpress.com/

"Quebre os grilhões da cela, mas não se assuste se o prisioneiro não sair, talvez a cela seja absurdamente confortável."

Reino & Sacerdote

Trabalhando para que a Igreja cresça e que o Reino avance!!! Ap 1.5,6

%d bloggers like this: