Espiritualidade é vida


Acabei de voltar de uma viagem para São Leopoldo, RS. Fui junto com o Guillermo e o irmão dele – Carlos Zuñiga – uma grande figura. Diria que foram três dias bem corridos. Acordávamos bem cedo, saíamos do hotel e só voltávamos no início da madrugada do dia seguinte. Sem dar espaço para o ócio, nossa rotina era intensa com reuniões intercaladas por boas ceias (não a dos rituais religiosos), passeios e novas amizades. Levei em minha mala uma obra de Eugene H. Peterson e, nos pequenos intervalos que havia entre um momento e outro, conseguia ler algumas poucas, mas inspiradas, páginas do livro “A maldição do Cristo Genérico” – melhor o título original: Christ Plays in Ten Thousand Places.

Estava programado meu encontro com um galera do bairro de Duque de Caxias. É um daqueles grupos de jovens inspiradores, cheios de talentos. Minha vontade era de me encontrar com eles para um bate-papo ao redor de uma mesa ou nos rolês pela cidade. Queria que nosso reencontro fosse o mais espiritual/vivo possível – ainda se pensa que o “ser espiritual” é a pessoa iniciada em assuntos religiosos ou o tipo de gente que tem a visível prática da oração; ou ainda somente os freqüentadores de cultos, ou qualquer que seja a coisa relacionada a isso. Lamento, pois este tipo de pensamento é mais uma conseqüência duma religiosidade reducionista – infelizmente a vida deu lugar ao rito.

G. K. Chesterton dizia que existem dois tipo de pessoas no mundo: uma, ao ver árvores e folhas com galhos balançando fortemente ao vento, acredita que é o vento que move as árvores; a outra afirma que o movimento das árvores é que cria o vento. O primeiro conceito corresponde ao que foi aceito pela humanidade por quase todos os séculos da história. De acordo com Chesterton, só nos últimos tempos tem surgido um novo tipo de pessoas que acredita tranqüilamente que é o movimento das árvores que cria o vento.

Seguindo esta idéia desse novo e moderno grupo de pessoas, poderíamos dizer que realmente o culto vem antes da vida; ou que o movimento, a respiração, a música, a dança, o trabalho, etc. tudo vêm antes da vida. Tem gente querendo fabricar o “mover” de Deus pelo lindo culto prestado em rituais que envolvem músicas, danças, falas e muita produção. Mas é lógico que isso seria uma grande idiotice! A vida vem antes de qualquer coisa, pois só pode fazer alguma coisa quem está vivo. A vida precede a forma! A vida vem antes do culto e o culto é apenas um resultado da vida!

Faço parte do grupo de pessoas que acredita que o vento movimenta as árvores, como quem afirma que é o Espírito que movimenta o homem.

Nas três línguas originais – hebraico, grego e latim – espírito tem significado essencial de fôlego, e pode ser facilmente utilizado como metáfora para a vida. Deus respira e sopra sobre essas águas. O fôlego é vida que vivifica.

Espiritualidade não é algo imaterial em contraste com o material; não é interior em contraste com exterior; não é invisível em contraste com o visível. Muito pelo contrário, a espiritualidade é intimamente ligada àquilo que é material, exterior e visível. A idéia transmitida por ela corretamente é de algo vivo, em contraste com algo morto.

Fui levado para Duque de Caxias para participar de um culto de jovens. Para encurtar a história: o culto só começou mesmo quando a galera estendeu o que já faziam em suas rotinas diárias. A vida deu a forma do culto. A vida produziu a verdadeira dança e nos presenteou com graça – como foi gostoso ver aquele grupo dançando… A vida deu ritmo aos sons que viraram verdadeira música para nossos vivos ouvidos. A festa se estendeu por mais um tempo e depois fomos para casa cheios de vida. Eu queria ver a Viviane e meus filhos lindões… queria acordar cedo pra pegar onda e depois comer um belo prato de comida. Entrei e sai de lá como homem espiritual, pois o vento estava soprando impetuoso e meus pulmões estavam cheios de fôlego.

Espiritualidade é intimamente ligada àquilo que é material, exterior e visível.
Ser espiritual é viver a vida que Deus deu para nós. É comer e beber, cantar e dançar, é andar com pessoas, compartilhar a vida em suas nuanças. A idéia transmitida por ela corretamente é de algo vivo, em contraste com algo morto.

Enfim, espiritualidade não é um conjunto de conhecimentos secretos; não tem nada a ver com aptidão ou temperamentos; não diz respeito, em primeiro lugar, a você ou a mim, ao poder ou ao enriquecimento pessoal. Ela diz respeito a Deus.

Boas ondas,

Tropical

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