Não me julguem, por favor…


Por causa de alguns textos que eu escrevo ou por coisas que tenho falado, é inevitável ouvir o velho e bom jargão de que “não devemos julgar”. Eu gosto das boas discussões e, numa dessas últimas, me senti inspirado para pesquisar e escrever um pouco sobre a questão “julgamento”. Agradeço, de verdade, todas as pessoas que me confrontam.

Filosofando…
Se alguém após me ouvir ou ler alguns de meus textos, me acusar de juiz, não estaria também me julgando? Pois como poderia me chamar atenção sem considerar, após uma pequena avaliação, que eu esteja me excedendo em algumas questões? Não seria o julgamento a conseqüência de uma prévia avaliação de fatos? E se formos criteriosos, o julgamento não será uma consequência? Mas se não podemos julgar, então também não deveríamos pensar. Mas, se depois de pensar chegarmos nalguma conclusão, será que poderíamos permanecer calados pelo resto de nossas vidas – traindo nossa consciência?

“Apóstolos, pai-póstolos, gurus gospel tem surgido por aí trazendo um “outro evangelho”. A palavra de Deus em sua essência é trocada por modismos, por hierarquias eclesiásticas, por dinheiro e por interesses particulares destes “super crentes”. São tantos “chofás proféticos”… Quebra de maldições hereditárias onde o crente nunca se converte de verdade, seções de descarrego, sabonetes de arruda, rosa ungida, sal grosso… é tanto “copo d’agua consagrado”… Unções especiais…, regressões, encontros tremendos, pastores poderosos, super apóstolos…” Calma! Não me julguem por tantas palavras…

O texto sem o contexto
O tão famoso jargão de que não devemos julgar foi extraído do sétimo capítulo de Mateus. Está escrito “Não julgueis, para que não sejais julgados.” Se isso basta como regra, desconsiderando todos os outro fatos, nós, em nenhuma hipótese, poderíamos promover qualquer tipo de justiça. Não poderíamos educar nossos filhos nem mesmo apontar para uma direção, senão, ao fazermos isso, automaticamente estaríamos dizendo que outra direção não é a boa – já não seria isto um julgamento? Não poderíamos mentoriar e muito menos promover tipos de melhorias. Então como poderíamos cooperar com Deus para estabelecer a ordem do Reino do Céu num mundo tão caótico? Enfim, como poderíamos exercer alguma influencia na sociedade?

Tenho uma idéia de que, caso sejamos omissos em julgar, o mundo será um caos ainda maior.

“O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”. (1 Co 13:6).

Um pouco de contexto
Na frase, como está está escrito no primeiro evangelho, Jesus claramente proíbe o julgamento. Porém a questão está em se Jesus proíbe qualquer tipo de julgamento ou somente certo tipo de julgamento. O primeiro versículo por si mesmo não nos dá uma resposta para esta pergunta. Por isso temos que aplicar uma regra fundamental para poder interpretar a Bíblia. Analisar sempre o contexto da passagem citada para saber de que se trata a mesma, pois sabemos que texto fora de contexto é um pré-texto para formar até mesmo uma heresia.

Aqueles que citam esta passagem isoladamente para dizer que não devemos julgar ninguém e ser tolerante estão gravemente equivocados.

“Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” Mt 7:2-5

Analisando o contexto podemos ver claramente que Jesus proíbe especificamente o “julgamento hipócrita”. Jesus diz aos judeus que eles não devem julgar e, logo dá a razão pela qual eles não devem julgar: o padrão que eles usam para julgar os outros será o mesmo padrão que os outros usarão para julgá-los. Eles não devem ignorar seus próprios pecados, enquanto condenando os mesmos pecados nos outros – hipocrisia. Fazer isto é julgar com um “padrão duplo”, ou seja, julgar hipocritamente.

Não é hipócrita condenar o irmão por uma pequena falta, ou mesmo tentar ajudá-lo a sobrepujá-la, quando você mesmo é culpado de uma falta maior? Esta é a grande questão que Jesus estava colocando diante do povo nesta passagem. Em outras palavras, uma mulher que está abortando um feto de oito meses não está na posição de repreender um homem que mata um caixa de banco.

“… Mateus 7:1, Romanos 14:4, I Coríntios 4:5 e Tiago 4:11 é freqüentemente mau usada pela multidão […] para dar suporte à sua falsa doutrina de que Cristãos são proibidos de julgar doutrina e prática. Fazer estes versos ensinarem que Cristãos não podem nunca julgar joga a Bíblia em confusão. Há um julgamento certo e um julgamento errado. Muitos versos nos ordenam que julguemos com julgamento justo (Lucas 12:57, João 7:24, ICo. 2:15). Nós devemos julgar pregação (ICo. 14:29), pecado nas igrejas (ICo. 5:3), disputas nas igrejas (ICo. 6:5), pecado em nossas próprias vidas (ICo. 11:31), falsos mestres (Mt. 7:15, Rm. 16:17), espíritos (IJo. 4:1), etc.” David Cloud – Pr

Algumas passagens bíblicas que nos ordenam julgar

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.” Gl 6.1

“Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina, pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se a fábulas.” 2Tm 4.2-3

“Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante santos? Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, soi, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Entretanto, vós, quanto tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja. Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?” Co 6.1-5

Os cristãos são solicitados a examinar tudo e reter o bem (1 Ts 5:21). Eles também são obrigados a provar se os espíritos são de Deus: “Irmãos, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas tem saído pelo mundo afora.” 1Jo 4.1

Mesmo nas reuniões cristãs eles devem “julgar” o que ouvem: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem.” 1Co 14.29

Também os crentes de Corinto receberam ordens para julgar imediatamente a imoralidade existente entre os seus membros (1Co 5.1-8). Mesmo o estrangeiro de passagem não deve ser hospedado se for verificado que não se trata de uma pessoa alicerçada na verdadeira fé (2Jo 10,11). E um anátema (maldição) deve ser proferido contra aqueles que apresentarem um tipo diferente de evangelho (Gl 1.9).

Conclusão:
Algumas passagens das Escrituras parecem proibir o julgamento, enquanto outras claramente exigem isso. Estudando os contextos daquelas que parecem proibir o julgamento, descobrimos que o que é proibido não é realmente o julgamento em si, mas sim um tipo de julgamento errado. Deus odeia o julgamento hipócrita! Mas Deus ama o julgamento justo da parte dos seus filhos. Que ele ama isso é claro a partir do fato de ordenar que o pratiquemos, e de ter dado sua lei como um padrão pelo qual podemos cumprir tal mandamento.
Portanto, é dever de todo Cristão julgar! Mas este “julgar” não significa fazer injúrias, calúnias ou fofocas sobre a pessoa que está no erro. Se vemos que alguém está se desviando do Evangelho ou pregando heresias, o nosso objetivo principal deve ser alertar, repreender, exortar e conduzir o pecador ao arrependimento e a restauração. Caso a disciplina seja indispensável, ela deve ser feita com seriedade, amor e tristeza, sempre objetivando o arrependimento, e não a condenação eterna do pecador. E com muito temor também, afinal, não somos pessoas perfeitas e ninguém deve ser julgado ou condenado injustamente. E também é nosso dever alertar ao Corpo de Cristo sobre determinadas heresias que porventura continuam a ser pregadas e os autores da mesma não querem dar ouvidos.

Créditos: Grande parte dos textos foram extraídos do blog Bereianos, mas editados por mim. Alguns textos retirados do livro: “Julgar, o dever do Cristão” – Rev. Doug Kuiper

Boas ondas.

Tropical

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5 comentários em “Não me julguem, por favor…”

  1. Andre 5 de Maio de 2010 às 01:09 #

    >Existe uma linha tênue entre o julgamento adequado e o inadequado, no entanto, me parece que a omissão nesse assunto não irá me impedir de pecar, tendo em vista minha condição humana, assim, melhor que se diga a verdade com a devida atenção às recomendações de Paulo à Timóteo….

  2. Conrado 9 de Maio de 2010 às 14:45 #

    >Bem legal tropical!

  3. >Creio que julgamento e exortação tem aspectos diferentes. Julgar é uma coisa exortar é outra. Julgar é expor o erro dos outros causando-lhe vergonha e até mesmo a destruição. Mas a exortação serve para corrigir uma possível falha, sem que a pessoa seja exposta a uma humilhação, pois como diz em Romanos 3:23 "todos pecaram" e como vc já disse um tempo atrás todos somos farinha do mesmo saco. Peço tb para atentar para Romanos 14. A palavra Julgar no texto de Mt 7:1 em grego é krino que pode significar: selecionar, separar, decretar, julgar, preferir, determinar…Então pode tb ser colocada na seguinte interpretação: Não separe alguem por causa de uma falha para que também não seja separado por algo que tenha cometido. Creio que exortar é melhor e mais válido. E nada melhor do que exortar pregando a Palavra de Deus.

  4. >DE NOVO ESQUECI DE ASSINAR.SOU EU O CHRIS…RSRSRS

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