Igreja. Será que este é o propósito de Deus? – parte II


Um amigo, depois de ler a primeira parte do texto, me enviou uma pergunta: “Jesus veio estabelecer seu Reino no mundo ou em nós (LC17:20-21)?” De acordo com o texto em Lucas, ele também disse discordar da parte em que eu escrevi dizendo que “a Igreja não tem o Reino, mas o Reino é que tem a Igreja”. Até aqui, segundo ele, a Igreja é que tem o Reino e “o seu papel é proclamar esse Reino (IPE2:9), para os que estão nas trevas.”

Acho que tal pergunta é pertinente e necessária. São estas e outras perguntas que me motivam o aprendizado.

Nós lemos em Lucas que “tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês” – [NVI]. Na versão RA (Revista Atualizada), está escrito “dentro de voz”. Neste sentido pode-se dizer que o reino está presente como uma realidade interior, uma coisa escondida no coração das pessoas (RM14:17). Porém a expressão “entre [no meio] de vós”, apontaria para a presença do Reino na pessoa de Jesus. Quer dizer, onde o Rei está, ali está o Reino. Também é necessário lembrar que estas palavras de Jesus era uma resposta a um grupo de fariseus “o Reino está entre vós”.

Antes de continuarmos precisamos entender o que é “O Reino de Deus [e de Cristo]”.
O Reino de Deus é a esfera do governo de Deus (Sl 22.28; 145.13; Dn 4.25; Lc 1.52; Rm 13.1,2), e a terra é a cena da rebelião universal contra Deus (por exemplo, Lc 4.5,6; IJo 5.19; Ap 11.15-18). O reino de Deus é a esfera na qual, em qualquer tempo, seu governo é reconhecido [Ele é antes da criação, de Adão, de Israel, da Igreja ou de qualquer outra coisa]. Deus não renunciou sua soberania em face da rebelião, demoníaca e humana, mas declarou seu propósito em estabelecê-lo (Dn 2,44; 7.14; ICo 15.24,25). Enquanto isso, procurando obediência voluntária, Ele deu sua lei a uma nação e designou reis para administrar seu reino sobre ela (ICr2 8.5) [o Reino não é da Igreja, ele tem a Igreja]. Israel, entretanto, ainda que declarando submissão nominal, tomou parte na rebelião comum (IS1:2-4), e, depois que rejeitou o Filho de Deus (Jo 1.11; cf. Mt 21.33-43), foi ‘quebrado’ (Rm 11.15,20,25). De hoje em diante, Deus chama os homens de todos os lugares, sem distinção de raça ou nacionalidade, para se submeterem voluntariamente a seu governo. É por isso que agora se diz que o Reino está agora em mistério (Mc 4.11), quer dizer, não vem dentro do âmbito das faculdades naturais da observação (Lc 17.20), mas é discernido espiritualmente (Jo 3.3; cf. ICo 2.14). Quando, futuramente, Deus declarar seu governo universalmente, então o Reino estará em glória, ou será, manifesto a tudo (cf. Mt 25.31-34; Fp 2.9-11; IITm 4.1,18).

É apenas uma questão de perspectiva.
Infelizmente, de maneira limitada, a perspectiva de crentes em Jesus Cristo tem sido à partir da Igreja – como se ela fosse o propósito (finalidade), de Deus desde o princípio. Quero dizer que, de maneira errada, todo planejamento começa à partir da idéia “igreja”. Exemplos claros são os que vemos na prática quando, só sabemos dizer “você precisa de uma igreja”. Ou quando todo planejamento resulta em “encher de novos membros” a nossa igreja. Ou até mesmo quando “reformadores” contemporâneos terminam, depois de todo ataque contra o sistema, criando “mais uma igreja”. Começam por ai [igreja], e terminam no mesmo lugar [igreja]. A conseqüência disso tudo é que ser um cidadão do céu aqui na terra se tornou em ser de alguma igreja evangélica qualquer. Quando isso acontece, o que deveria ser uma nação celestial estabelecida aqui na terra, para influenciar e transformar pessoas e seus espaços, se torna apenas uma subcultura, isto é, algo que está dentro de uma cultura maior e dominante – dentro do sistema e também seus valores.

Precisamos entender que já somos a Igreja dentro do Reino de Deus. Precisamos entender que somos uma nação, cujo os valores não são os daqui, mas do céu. Precisamos entender que, mesmo aqui na terra, somos mordomos de um Rei eterno. Precisamos entender que “Venha o teu Reino” – Mt 6.10 – é pontual. Isto é, um acontecimento que frustra a idéia de progresso e desenvolvimento. Será uma “catástrofe” súbita – relacionado ao Reino Futuro. Concernente ao presente, hoje, o fato é que se alguém entrar no Reino de Deus, isso nada tem a ver com aparências, mas sim nas questões profundas do coração, que são espirituais e essenciais – justiça, paz e alegria no Espírito Santo – Rm 14.17. Ou seja, o Reino de Deus existe desde sempre, mas para pessoas, só será à partir do momento do novo nascimento – ai ele recebe também a nova natureza evidenciada pela obediência – Mt 7.21. Deus reina eternamente, mas Jesus anunciou isto dizendo às pessoas que poderiam se submeter a este governo desde já (presente), para usufruir de toda a eternidade (futuro para nós), porém, um dia o Reino estará em glória e será manifesto a tudo – Mt 25.31-34; Fp 2.9-11; 2Tm 4.1,18.

O propósito.
Eu entendo que o propósito (finalidade), de Deus é a restauração de seu Reino para toda a criação (cosmos). Para isso ele fez Adão (o primeiro), mas este falhou – o propósito de restauração não começou à partir de Adão, mas ele já estava no processo da restauração e era cooperador com Deus. Ele tinha esta incumbência, mas sucumbiu. Jesus Cristo, o segundo Adão na versão de Paulo, que é do céu, veio com esta novidade – chegou o Reino, aqui na terra (Ele mesmo) – e permitiu que entrássemos nele pelo poder de nos tornarmos filhos de Deus. O reino está em nós, ele nos tem…

“Os relato trágicos dos erros e decisões equivocadas de Adão e Eva e de seu primogênito Caim ecoam nas histórias posteriores de sofrimento e infortúnio de seus filhos e netos. À medida que as pessoas deixavam a região do Éden, para povoar o mundo… o legado de ódio, rancor, assassinato e traição se transmitia, enquanto elas continuavam negligenciando sua relação com Deus… todos se esqueceram completamente de seu Criador e do próprio sentido de suas vidas. Começaram a encaram a vida como uma grande festa, sem pensar nas conseqüências…” A História – A Bíblia contada como uma só história, do começo ao fim.

“Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu…”
O reino está estabelecido na terra, mas é pela fé que entramos nele.
Quanto a Igreja, eu acho que existe uma confusão em relação ao nome.
Ekklesia quer dizer assembléia, formado de ek, “para fora de”, e klesis, “chamado”. Na Septuaginta, é usado para se referir ao “ajuntamento” de Israel, convocado para qualquer propósito (finalidade) definido. Nesse sentido, em nosso tempo, a Igreja, que é o Corpo de Cristo, é um ajuntamento de pessoas formado por crentes, com a finalidade (propósito) de anunciar o Reino. Ou seja, o Reino não foi estabelecido na Igreja, mas a Igreja deve ser estabelecida no Reino. Infelizmente não é isso que temos visto. Infelizmente a igreja tem se corrompido, e como Israel (que deveria estabelecer-se debaixo do governo de Deus), vem se submetendo ao sistema [reino] deste mundo. A Igreja deve ser do Reino. O Reino deve ter a Igreja – “ajuntamento” convocado para um propósito (finalidade) definido, mostrar a glória do Pai.

Os sinais deste Reino deveriam se evidenciar em nós. Nós estamos no mundo, como Jesus disse (João 17). Observando desta ótica, Reino foi estabelecido neste mundo. Somos mordomos do Rei e representantes do Reino. O Rei que é nosso Pai, “por acaso” é Deus. Jesus é o nosso salvador, senhor e amigo. O Espírito Santo, nosso ajudador, capacitador, consolador, etc. O sinais do Reino também deveriam se evidenciar quando nos juntamos (ekklesia), mas, para mim, pouco tem a ver apenas com um culto formal. Nós deveríamos evidenciar os sinais desse Reino em todas a áreas – social, empresarial, artes, educação, política, etc…

Mas o que temos feito?
Cultos dominicais?

Dizer que a Igreja é que tem o Reino, é o mesmo que dizer que a Igreja está acima de Deus, uma vez que o Reino de Deus é a esfera de seu governo.

Fontes bibliográficas: Novo Testamento Interlinear Grego Português, Dicionário VINE (o significado exegética e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento), e Bíblia Estudo de Genebra. A História – A Bíblia contada como uma só história, do começo ao fim.

Boas ondas,

Tropical

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11 comentários em “Igreja. Será que este é o propósito de Deus? – parte II”

  1. hipergiga 1 de Maio de 2010 às 02:31 #

    >Tropical, vc conhece esta "igreja"? http://www.projeto242.com

    • Tropical - AIRO 14 de Dezembro de 2011 às 19:56 #

      Conheço!
      Já conversei e troquei uns comentários com o Baggio.
      O cara é bom!

  2. Phmquintanilha 30 de Agosto de 2011 às 14:31 #

    Yes. Isso é o que creio. Continuo parte de uma organização e acredito que isso não nos impede de trabalhar para o avanço do Reino, pelo menos até então não tem me impedido. Um ótimo texto irmão. Gostei muito de te conhecer. Um abração.

  3. Lucas Buck 21 de Julho de 2012 às 05:25 #

    Aew, agora sim amadureceu e organizou as ideias.

  4. Mateus Gomes 22 de Janeiro de 2013 às 13:43 #

    Tropical, me desafiou bastante o texto. E gostaria de desafiar a todos refletindo.
    Se somos uma comunidade com a missao de divulgar e instaurar o reino de Deus nesta terra, como uma subcultura, a organização não seria uma forma de sermos relevantes diante deste propósito?
    Penso na organizacão como na igreja neotestamentária que se estruturou para distribuir de forma eficaz a doações(At 6 1-5).
    Paulo recorreu a bondade da igreja na macedônia para auxiliar os pobres da igreja em jerusalem(2 cor 1,2).
    Continuo acreditando no ajuntamento de pessoas com o propósito de ajudar o próximo , acredito que este seja o modelo que responderá a sociedade demonstrando o amor de Deus.
    O reino não é a consequência de um bom “modelo” de igreja e sim a essência da Ekklesia ( a partir do reino de Deus vivemos a igreja)
    As pessoas têm se procupado tanto em “ajustar” a igreja que se esqueceram da essência que é se reunir para servir a Deus e o próximo.
    Acredito que revolução já comecou de dentro para fora , mas aqueles que estão fora estão distantes demais para enxergar o que Deus têm feito dentro.
    Deixo a frase do pastor Francis Chan “o mundo perde quando você não se envolve”

    Abs

    • Tropical - AIRO 22 de Janeiro de 2013 às 13:59 #

      Fala Mateus…
      Pow! Novamente interpretam os textos como uma proposta de acabar com as organizações/ajuntamentos. Esta interpretação está errada. Pois a proposta é para repensar o modelo para que o ajuntamento seja mais eficaz/relevante, enquanto organização legal.
      Quanto ao seu comentário da passagem do livro de Atos, trata-se da igreja que estava em Jerusalém. Naquele caso, os crentes estavam sendo saqueados pelo estado. Se não vendessem seus bens, perderiam para Roma. Dai, pegavam o pagamento e entregavam aos apóstolos de Jesus. Estes faziam a distribuição de forma justa e necessária. Qto a Paulo, foi dito a ele para que nunca se esquecesse dessa situação [a perseguição e a pobreza dos crentes em Jerusalém]. Este era o motivo que o fazia levantar recursos em outras regiões. Enfim, vale o sentimento de cooperação que havia.
      Quanto a igreja, sendo esta o povo do céu, deveria ser uma contra-cultura, não sub-cultura.

      abxx

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