É apenas uma questão de escolha


Neste último domingo, 22 de marco de 2010, ao final de nossa reunião decidimos orar sobre coisas específicas. O que mais me chamou a atenção foi que todos pedidos tinham um ponto em comum: todos envolviam questões de necessidade para uma escolha ou decisão. Faz alguns anos que me envolvi em questões da fé e boa consciência. Também, em relação a isso, estava em jogo minha relação com pessoas e um lugar. Atingiria meu futuro próximo, minha família e alguns planos. Estava incomodado com toda a situação e precisava resolver o dilema.
Para não rescrever tudo novamente sobre esta questão das escolhas, resolvi então apresentar abaixo uma carta/e-mail que representa muito bem o desfecho desse antigo episódio. Mudarei apenas algumas poucas coisas – nomes, pessoas, lugares – pois não mais farão sentido para os que vão ler.

São Paulo, 26 de junho de 2007

… primeiramente gostaríamos de agradecer – eu e a Vivi – aquele bom final-de-semana que tivemos juntos, apesar da falta de ondas.

Realmente acredito que as coisas aconteçam no tempo certo. Acredito que certas coisas são necessárias para que possamos aprender com os próprios erros, ainda que fosse mais sábio aprender com os erros dos outros. Com isso quero dizer que errei no procedimento quanto a minha disposição em relação [ao lugar/pessoas]… Por isso te peço perdão.

Tenho que dizer que todas as vezes que conversamos sou surpreendido por sua sabedoria. Gosto muito de [ouvi-lo falar e também da sua maneira para discernir as coisas].

Acredito que naqueles dias em que estivemos juntos pude ouvir e falar um pouco das coisas que estavam em meu coração. Mas de maneira nenhuma tenho disposição para discutir assuntos teológicos com [você]. Respeito a sua posição em todos os sentidos e não me vejo muito no direito de lhe fazer tais confrontações. Confesso que gosto de discussões teológicas. Faria isso com alguns amigos – ex.: [Fulano, Ciclano] e etc – sem problema algum. Mas não com [você]. Então, também me perdoe por isso caso tenha parecido que quis [questioná-lo] em coisas desse tipo. [Até mesmo porque também creio que questões doutrinárias, preceitos e culturas podem ser considerados de caráter secundários].

Mesmo assim fiquei lhe devendo uma resposta quanto a minha disposição dentro de um todo. Então tentarei ser claro. Acredito numa visão (considerando isso mais como uma maneira de anunciar o Reino dos Céus do que como se fosse “algo novo” – [como algo relacionado ao governo do nosso Pai, que por acaso também é o único Deus]) como uma semente que Deus tenha plantado em meu coração. Isso tem a ver com [trabalho] e se tratando de mim o nome disso já é sabido por todos – AIRO. Porém não penso num tipo de trabalho / ministério paraeclesiástico – algo fora de uma igreja local e sem vínculo nenhum. [Hoje em dia considero a Igreja de Jesus Cristo muito antes de qualquer instituição religiosa e, paraeclesiástico, para mim, não mais significa fora de um lugar. Essa palavra já caiu em desuso, não faz mais sentido.]. Pois creio que na igreja de Jesus Cristo é onde se juntam [pessoas vocacionadas para cooperar com Deus para a] edificação do corpo. Quero dizer com isso que plantar igrejas é mais eficiente do que plantar ministérios paralelos.

Depois de ter conversado com a [você], na mesma semana tive também uma conversa animadora com o [Fulano]. Falamos de novos paradigmas, novos projetos, sonhos… enfim, de um novo tempo para [o lugar]. Tenho que confessar que fiquei muito animado com a conversa. Achei um tanto realista. Novamente cheguei a ter um vislumbre do que poderia ser junto com [o lugar].
Porém tenho me preocupado mais em ouvir a voz de Deus para tomada de decisões do que ouvir minha própria alma. Esse é o grande dilema. Como já disse, sei o que quero. Não sei onde, como e qual o lugar.

Sendo muito sincero, não teria problema algum ser [aqui] como também começar algo [em qualquer lugar]. Digo começar algo novo porque não tenho planos para ir em qualquer que seja outra denominação [não mesmo]. Pois ainda não conheço um lugar no qual me adaptaria tão bem. Como disse, gosto do nosso estilo de ser. Acho que isso é uma conseqüência do quanto a [você] já entendeu sobre a misericórdia e também a graça de Deus.

Estava disposto mesmo a ficar. Torci para que essa fosse a resposta de Deus. Pensei em tudo…

[O desfecho veio apenas depois pouco mais de um mês. Eu estava na Costa Rica, pegando onda, refletindo sobre os fatos e lendo um livro do J. I. Packer. Foi ai que se deu o desfecho: quando lia o capítulo “Deus, nosso guia” do livro “O conhecimento de Deus”. Todo o texto que se segue é com base no que li].

São Paulo, 4 de agosto de 2007

Hoje eu entendo que para muitos cristãos a direção é um problema crônico. Não porque duvidem de que a direção divina seja um fato, mas porque têm certeza disso. Pois sabemos que Deus pode nos guiar e que prometeu nos guiar. Ele formou um “plano eterno” (lit. “um plano de séculos”), “na plenitude dos tempos” segundo o propósito “daquele que faz todas as coisas, segundo o propósito da sua vontade” (EF 3.11; 1.10,11). Além disso, na bíblia contêm promessas explícitas da direção divina por meio das quais podemos conhecer os planos de Deus para nós. “Eu o instruirei e o ensinarei no caminho que você deve seguir; eu o aconselharei e cuidarei de você”, disse Deus a Davi (SL32.8). A direção de Deus também é o tema principal do salmo 25, onde lemos: “Bom e justo é o SENHOR, por isso mostra o caminho aos pecadores. Conduz os humildes na justiça e lhes ensinas o seu caminho […] Quem é o homem que teme o SENHOR? Ele o instruirá no caminho que deve seguir” (vs 8, 9 e 12). Assim também em Provérbios 3.6: “Reconheça o SENHOR em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas”. E no NT aparece a mesma expectativa de direção. A oração de Paulo pelos colossenses: “que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual”, e a oração de Epafras: “para que continuem firmes em toda a vontade de Deus” (CL1.9; 4.12).

“Entendo que cristãos sinceros à procura de orientação muitas vezes se enganam a esse respeito. Geralmente isso acontece porque o conceito da natureza e do método da direção divina esteja errado. Procuram uma direção enganosa; desprezam a direção pronta, à mão, e se entregam a toda sorte de fantasias. [Tenho me preocupado muito com isso, pois não quero fantasiar um “futuro ministerial” que nada tenha a ver com a vontade de Deus]. O erro básico seria pensar que a direção é basicamente uma inspiração íntima do Espírito Santo sem a participação da palavra escrita”. J.I.Packer

Tenho tentado entender a direção divina entre dois aspectos. Primeiro, pela aplicação direta de uma base bíblica procurando nas escrituras as possibilidades legais entre as opções elegíveis. Segundo, justamente porque as escrituras não podem determinar diretamente uma escolha (ex.: nenhum texto bíblico me disse para pedir em casamento a Viviane que hoje é a minha esposa ou o número de filhos que eu devo ter com ela), o fator inspiração e inclinação dados por Deus, pelo qual eu poderia me comprometer a um tipo de responsabilidade ou fazer uma escolha em detrimento de outras opções, me faria sentir em paz e tornar-me decisivo. Mesmo buscando nesses dois aspectos (base bíblica e inspiração dada por Deus), não quero determinar presumindo que toda direção para resolver problemas apresenta somente essas duas características.

“Nenhuma área da vida demonstra mais claramente a fragilidade da natureza humana, mesmo a dos já regenerados.” J.I.Packer

Enfim, tenho buscado a direção de Deus para uma tomada de decisão muito importante. Quero honrar o Espírito Santo como meu guia sabendo que isso é honrar as sagradas escrituras, seu instrumento para nos guiar. Não se trata de indução interior desvinculada da Palavra, mas da pressão exercida na consciência pela representação do caráter e da vontade de Deus na Palavra, que o Espírito Santo nos ilumina para que entendamos a apliquemos à vida.

Então para não errar, tive muita disposição para pensar sobre o assunto. Tive disposição para pensar adiante e pesar as conseqüências de médio e longo prazo das alternativas no curso dessa ação. Tive disposição para aceitar conselhos. As escrituras enfatizam essa necessidade: “O caminho do insensato parece-lhe justo, mas o sábio ouve conselhos” (PV 12.15). Pois há sempre alguém que conhece a Bíblia, a natureza humana e nossas habilidades e limitações mais que nós mesmos, e ainda que não possamos aceitar seu conselho, alguma coisa boa tiraremos se pensarmos com cuidado o que disser-nos.
Tive disposição para suspeitar de mim mesmo. Pois não gostamos de ser realistas a nosso respeito e não nos conhecemos tão bem quanto pensamos. Podemos reconhecer racionalizações nos outros e não percebê-las em nós. Precisei me perguntar por que sinto que uma determinada atitude é certa e me obrigar a dar as razões disso. Expus o caso a pessoas em cujo julgamento confio para avaliar minhas razões. Tive disposição para descontar o magnetismo pessoal. Evitei considerar as pessoas que me tratam como um anjo, profeta, pregador, aceitando suas palavras como direção para si mesmos e seguindo cegamente minha liderança [também descontei o magnetismo pessoal de pessoas que me servem de boa referência quanto aos assuntos espirituais]. E por fim, tive disposição para esperar em Deus para me dar mais esclarecimentos sobre o futuro. Enquanto tive dúvida, não fiz nada, continuei esperando.

… Quero dizer com tudo isso que pelo que me parece não existem respostas simples. Entendo que não devo concluir que uma escolha certa signifique um caminho livre de problemas. Entendo assim, que mesmo errando o nosso Deus não apenas restaura, mas incorpora nossos erros e tolices ao seu plano e tira proveito deles. Isso faz parte da maravilha de sua graciosa soberania. O Jesus que restaurou Pedro depois da trai-lo e corrigiu seu curso mais de uma vez depois disso (AT 10; GL 2.11-14) é nosso salvador hoje e não mudou. Deus não só faz a ira do ser humano transformar-se em louvor, como também as desventuras do cristão.

Quero concluir assim, a direção, como todos os atos de bênção, sob a dispensação da graça, é um ato soberano. Deus não nos guia apenas para mostrar o caminho que devemos trilhar. Ele quer nos guiar também no sentido mais fundamental de assegurar que, aconteça o que acontecer, quaisquer que sejam os erros cometidos, chegaremos seguros ao lar. Haverá sem dúvidas escorregadelas e desvios, mas os braços eternos estão por baixo, seremos alcançados, salvos e restaurados. Essa é a promessa divina; isto mostra quanto ele é bom. Me parece então que o contexto exato para discutir direção é a confiança em Deus, que não nos deixará arruinar a alma.

Agora porém cheguei a uma definição.
Hoje tenho paz em Deus para sair [deste lugar].
Quero fazer isso.

… Jesus o primeiro e o último,
Cujo espírito nos guiará ao lar com segurança;
Nós o louvamos por tudo o que passou,
E confiamos nele por tudo o que há de vir.
Joseph Hart

Com temor,
Paulo David Muzel Jr – Tropical
Viviane Franzoti Muzel

[Espero que este texto possa ajudá-los em questões que envolvem as escolhas pessoais].

Boas ondas

Tropical

Ainda sem comentários.

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