Igreja é resultado do que pensamos


No mês de julho, férias escolares, fui convidado para falar num congresso de jovens que aconteceu dentro da ONG – GVN (Geração Vida Nova), que fica dentro das favelas do Jardim Aeroporto. O tema do congresso foi Geração Emergente. Tinha como objetivo o despertar para a realidade da igreja moderna e sua relevância para as gerações emergentes e pós modernas. Antes de iniciar qualquer tipo de assunto, decidi começar com uma simples dinâmica de perguntas e respostas. Precisava saber qual era a realidade atual do conceito que as pessoas tinham a respeito de Jesus Cristo, sua Igreja e missão. Aproveitei minha própria didática para também responder as questões que apliquei na primeira dinâmica. Gostaria de compartilhar essas questões, minhas próprias respostas e confrontações. Também gostaria que antes de ler minhas respostas você pensasse por algum tempo a sua própria resposta. Depois disso, fizesse o exercício da auto confrontação.

As perguntas:

1- Como você imagina a aparência de Jesus, morador da Palestina há pouco mais de dois mil anos atrás?

R.: Imagino que fosse um palestino de aparência simples. Diferente dos homens poderosos ou dos líderes religiosos – fariseus, sacerdotes e escribas. Imagino que ele fosse, como diriam alguns, “gente como a gente.”

Não o imagino como um homem cansado ou cabisbaixo, nem como austero arrogante querendo se impor pela postura. Porém a bíblia o descreve como “uma plantinha que brota e vai crescendo em terra seca. Ele não era bonito nem simpático, nem tinha nenhuma beleza que chamasse a nossa atenção ou que nos agradasse” [muitos defendem que essa descrição feita pelo profeta Isaías fosse da aparência de Jesus quando já estava sofrendo nas mãos de soldados romanos pouco antes da crucificação. Não posso concordar, pois acho que, na maioria das vezes, estão justificando suas vaidades e ambições. Insisto que voltem ao início do texto e leiam com atenção o a narrativa do profeta Isaías. Provavelmente a descrição da aparência de Jesus em seu sofrimento seja somente à partir do próximo versículo]: “Era como alguém que não queremos ver; nós nem mesmo olhávamos para ele e o desprezávamos.” Isaías 53

Confrontação:

Então porque em nossas representações teatrais, pregações ou explicações a respeito de Jesus ainda o mostremos com a aparência de alguém bem diferente dessa realidade bíblica?

Sempre apresentamos um Jesus que se destaca das demais personagens – vestido de branco, com cabelos e barba bem feitas, voz pausada e comedida – diria que, quase um ser fantasmagórico – no entanto, por sua aparência, ninguém poderia identificá-lo como sendo algo a mais do que um simples carpinteiro. Diziam: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs?

Para que os sacerdotes e levitas soubessem quem era o Messias, João, enquanto batizava às margens do Jordão, teve que identificá-lo como o Cordeiro de Deus. Pior, nem mesmo João saberia reconhecer o Messias senão pelo Espírito que repousava sobre ele. Judas teve que identificá-lo com um beijo para que os soldados romanos soubessem a quem deveriam prender. E, mesmo depois de sua ressurreição as mulheres o confundiram como um jardineiro qualquer. Com certeza o modelo de Jesus que nos foi formado, pela cultura ocidental e religiosa, nada tem a ver com o morador da antiga Palestina.

2 – Se Jesus fosse brasileiro e estivesse aqui hoje, em carne e osso, como você acha que seria a aparência dele?

R.: Menos vaidoso que eu. Diferente dos líderes políticos que conhecemos e muito menos parecido com o corpo que compõe o clero alto – isso existe, pode crer. Não seria reconhecido por suas roupas, pois não estaria preocupado com que grife se vestir. Não seria reconhecido pela aparência do nosso padrão de beleza. Imagino que não usaria terno, a menos que fosse para agradar um amigo ou em certa ocasião que fosse indispensável o uso. Muito talvez para cumprir formalidades ou protocolos – não acho que ele seria do contra pelo simples prazer de provocar os oponentes. Não acredito que Jesus fosse atraído pelas grandes cidades, centros financeiros ou possibilidade de bons negócios. Por isso acho que ele não estaria em São Paulo – muito menos Brasília. Longe do sul, para cima do sudeste, mais provavelmente norte e nordeste – onde está mesmo o centroeste?

Acho que estaria bem longe dessa babilônia que são os programas evangélicos de televisão ou rádios, apesar dele ser notícia em todos os meios de comunicação devido a sua fama inevitável – rumores do Messias. Acho que ele teria a cara de um brasileiro comum, que nem serve para ser modelo de revista de moda, pela falta de beleza excessiva; que também não serve para ser a arte em que o feio se torna belo, pela simplicidade de sua aparência. Talvez mais parecido com um índio do que com um descendente europeu – brasileiro de brasileiros com cara de pobre.

Confrontação:

Então porque que nós ainda queremos tanto ser o esteriótipo de pastores ou crentes bem sucedidos na aparência e também o padrão da moderna prosperidade? Porque corremos tanto atrás do dinheiro como se isso resolvesse nossos problemas ou como se ainda fosse um sinal de aprovação da parte de Deus por nossa boa conduta?

3 – Qual seria o seu ideal de igreja?

R.: O contrário da religião que é o veneno fatal, que mata o indivíduo pela distância que o coloca de seu criador. A igreja sem placa e sem endereço – não quero dizer algo contra as denominações em si, mas contra a denominacionalização da fé, da obra de Cristo ou povo escolhido. Como que “só aqui Deus opera milagres”.

Imagino a igreja com irmãos e irmãs do meu prédio compartilhando a fé e aprendendo a Palavra de Deus, com as suas e a minha casa disponível, aberta, para celebrarmos a comunhão do Corpo de Cristo. Nas casas de meus amigos, junto com os amigos de meus amigos, discutindo a necessidade e fazendo a vaquinha para pagar uma conta atrasada do necessitado da vez que poderia ser eu ou você. Na porta dos hospitais, presídios e asilos, servindo, evangelizando e consolando. No café do shopping ou de baixo da ponte, chorando ou rindo, orando ou cantando, contando com a ajuda de mais outro irmão para suprir e complementar o serviço. De dentro das empresas e das universidades para a periferia e comunidades carentes. Uma única igreja – a igreja que é o Corpo de Cristo, a Noiva, a enviada, ou seja: a missão em si. O culto formal seria apenas um resultado da nossa vida diária.

Confrontação:

Então porque eu luto tanto para defender uma placa? Porque, com ar de disputa, continuo perguntando às pessoas a qual igreja ela pertence? Biblicamente falando, quantas igrejas existem?

4 – Qual é a realidade da igreja moderna? Em sua opinião.

R.: Mais comprometida com seus ritos, símbolos e dogmas do que com a missão de Cristo. Mais comprometida com a sua placa, seus preceitos, suas festas e eventos do que com a vizinhança. Comprometida mais com suas regras do que com a graça de nosso Senhor. Mais comprometida com os números, com a performance e resultados, com a expansão e conquistas, com seus orçamentos e desafios de fé do que com o exercício da piedade. Deixamos de lado o sentido da palavra para sermos a corrupção do termo.

Confrontação:

O que tenho feito para mudar isso?

5 – Qual dessas duas igrejas você acha que Jesus frequentaria? Porquê?

R.: Para responder a esta pergunta, é lógico que tenho que ser o mínimo criativo. Pois, em primeiro lugar, a igreja só foi inaugurada após sua ressurreição e, nossa realidade cultural e histórica também é totalmente diferente. Outra coisa, Jesus é o cabeça da igreja – uma realidade e dimensão muito diferente da nossa – todos somos ovelhas diante dele. Mas então desconsiderarei os fatos, desconsiderarei que essa pergunta seja apenas uma pegadinha e responderei imaginando que o freqüentar de Jesus em algum lugar em específico não seja o lugar X ou Y, mas um lugar onde, independente da qualidade e aparência das pessoas, fosse de sinceridade, de fome e desejo por Ele. Também sou tentado a pensar que ele não estaria em nenhum lugar parecido com os que eu geralmente gosto de visitar, mas onde poucos gostariam de ir; onde os necessitados estão – de toda sorte.

Confrontação:

Então porque ainda eu não entendi que sou a Igreja de Jesus Cristo junto com meus irmãos na fé, independente de onde nos juntamos? Porque ainda não entendi que igreja em termos bíblicos nunca foi um lugar onde se vai? Seria a igreja um prédio cheio de gente ou seria gente cheia de Deus?

6 – Como você imagina que seria a igreja do padrão bíblico? Faça uma descrição sucinta.

R.: Uma igreja que ande no mesmo sentimento que Cristo andou – olhando a multidão e se compadecendo deles. Uma igreja que zele pelos princípios, pela moral e ética para fazer a diferença em meio ao caos que estamos vivendo. Uma igreja responsável na missão de se estabelecer o reino do Céu, através da proclamação, do ensino e da assistência aos necessitados. Uma igreja que fuja da fama e ostentação pecaminosa. Uma igreja que aprenda o que significa temor a Deus – esse é um termo difícil de se compreender – que saiba o que quer dizer “santificado seja o Teu nome” e o que significa “Pai nosso”. Uma igreja que se junta para orar uns pelos outros, pelos doentes, para cantar e ler, chorar, comer e beber, compartilhar e dividir o que lhes foi dado de graça. Uma igreja que tenha sabor, que seja uma cidade edificada no alto.

Confrontação:

Porque não aplico todos esses conceitos, princípios e sentimento para minha própria vida, antes de cobrar das grandes massas? Como disse Gandhi: “Você precisa ser a mudança que quer ver…”

7 – Qual seria o seu ideal de vida?

R.: Uma vida sem as vaidades que me tiram do foco, sabendo lidar com toda essa influência venenosa de uma cultura religiosa, consumista e passageira. Uma vida simples, contentando-me com a provisão de cada dia sem abrir mão da prudência e, com o foco no reino dos Céus. Uma vida com menos preocupação pessoal, mas praticando a piedade. Quero dizer, com o foco na eternidade, não em apenas 80 anos – isto é, se tudo der certo. Uma vida abnegada para ser eficiente e útil na missão de apresentar as boas novas de Cristo, através da mensagem e da fé e com as obras que a validam.

Confrontação:

O que está me faltando para alcançar tal padrão?

8 – Qual é a sua realidade de vida?

R.: Ainda luto contra minhas vaidades e me esforço para enxergar o invisível pelos olhos da fé. Apesar de saber qual a recompensa que vale a pena, corro muito pela que pouco vale. Tenho a esperança em Cristo e na ação do Espírito Santo em minha vida para ser transformado dia após dia em minha mente e caráter. Creio que estou como um corredor tentando atravessar a linha de chegada, considerando as dificuldades de minha própria natureza, mas esperando que esta se torne menos evidente que a natureza de Cristo. Estou num processo necessário. Já aprendi que a vida não se torna mais fácil à medida que recebemos o conhecimento e nos aproximamos da verdade, pode ser mais leve, mas não mais fácil. Parafraseando Larry Crabb, quando tinha 20 anos, não era mais fácil do que quando tinha 10 anos; quando 30, não era mais fácil que 20 e hoje, minha vida não é mais fácil que ontem. Mas vejo tudo isso como um bom conflito – saudável. Não me desanimo quanto a realidade.

“Jesus e seus ensinos não parecerão tão estranhos ou repulsivos aos não cristãos como, por certo, parecerá a subcultura cristã que criamos. As gerações emergentes estão, na verdade, bastante interessadas em Jesus, mas muitas vezes os cristãos atrapalham.” Dan Kimball

Acho que é somente isso.

Espero que esses exercícios de raciocínio o tenha ajudado para alinhar algumas idéias, pois em tal congresso nos foi muito boa a dinâmica – algumas coisas mudaram depois disso.

Tropical

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