Ide! … Faça alguma coisa, pelo menos.


Já está claro para mim o que é viver uma grande utopia missionária. Quero dizer com isso que infelizmente sonhamos com a missão perfeita: reconhecimento do nosso chamado pela liderança de uma igreja local, envio – de preferência num país da Europa, mas caso seja em países mais pobres, com no máximo um mês de permanência – sustento e ótimas condições para se permanecer em campo. Tudo isso para que depois de nossa chegada, haja um grande espaço para contarmos nossas histórias em púlpitos. O que há de errado nessas coisas?

Me parece que a palavra “missão” está, ao mesmo tempo, bem difundida e tão mau compreendida. Fizemos dela um grande ideal que também se transforma no constrangimento de muitos (menos mau, nesse último caso). Por este motivo é que não é difícil ouvirmos pregadores que gostam de amenizar o problema com o discurso de que você também poderá fazer missões orando ou enviando, nesse caso para te pedir um pouco de dinheiro, já que a algumas igrejas locais nunca o tem, nem mesmo um fundo para isso. Óbvio que neste caso só existe sentido porque o sentido original da missão foi deturpado. Nem sei da onde tiraram que orar é fazer missão. Poderíamos dizer então que os maiores missionários são os do grupo da intercessão, certo? Então, vamos chamá-los de missionários.

Missões viraram o sonho de consumo de muitos jovens e a frustração de alguns velhos. Pois ela se tornou praticamente impossível pelo engano das nossas próprias vaidades. Sempre que pensamos em missões, pensamos de maneira errada: Em um ótimo planejamento – talvez precise, na maioria das vezes não. Nos consentimentos de pessoas – seria um pouco de burrice da nossa parte esperar que pessoas inertes nos apoiassem para algo que nunca fizeram. Na solidariedade de amigos – gostaríamos que viessem conosco. Em dinheiro – já que a idéia está sempre em algum lugar longe de casa e que precisamos ir de avião. Em resolver primeiro nossos problemas pessoais – em casa, no trabalho, na igreja, na vida. Em condições que nos isentem de trabalho – pois ai sobrará tempo e não teremos mais preocupações – quem sabe na aposentadoria ou na loteria. Em um anjo ou o próprio Deus se tornando visível aos nossos olhos como a prova de que a nossa hora chegou – ainda assim eu duvido que daria certo. Enfim, são inúmeras as situações de enganos, convenientes.

Durante anos eu preguei esses mesmos preceitos porque acreditei dessa maneira. Porém quanto mais meu discurso teórico se tornava perfeito, mais me sentia um impostor diante de Deus e do público que me ouvia falar sobre o assunto. Incontáveis são as vezes em que falei a famosa frase: “Precisamos sair de dentro dessas quatro paredes, Deus nos deu as nações por herança…” Biblicamente correto, praticamente errado. Erroneamente e em vão busquei chamar a atenção para o meu discurso, pois quem sabe assim poderiam se compadecer e com apoio me enviariam. Sempre provei, com certa amargura, a maior cobrança da parte do Pai pelo fato de estar na função de quem ensina. Pedia ao público que fizessem algo sem mesmo nunca ter feito. Os desafiava a saírem de sua zona de conforto sem nunca ter saído, senão pela consciência já desconfortável. Para deixar de me sentir um impostor e não mais trair minha própria consciência, tive que abrir mão do discurso e começar a confrontar minha própria fé pela palavra de Deus. Coloquei na mesa, como se fossem cartas, todos os preceitos que me foram ensinados. Um a um (ainda não terminei), questionei, revisei, confrontei, desprogramei e, contando com a graça de nosso Deus, manifesta em Jesus Cristo e confirmada pelo Espírito Santo em nós, tenho reaprendido a fé.

Ouvi, nessa última semana, a frase: “Missão é a obra mais barata que existe”. Não parece tão óbvio assim, mas é a realidade. Para se anunciar as Boas Novas do reino do Céu, basta-nos abrir nossas bocas a quem quer que seja, em qualquer lugar, quer seja oportuno ou não. Entendi que o discurso “temos que sair das quatro paredes e ganhar as nações”, com todos os preceitos equivocados, era bem ridículo, pois a missão estava mais acessível do que parecia. “Descobri” que no quarteirão em que está a igreja local existem outras casas e famílias que nunca ouviram falar do amor de Deus em Jesus Cristo. A estratégia agora seria apenas ir até estas pessoas. Onde moramos, nossos vizinhos também precisam de ouvir o evangelho de Cristo. “Descobri” que na minha cidade existem hospitais, presídios, favelas, moradores de ruas, escolas, universidades, ONGs, etc., de acesso barato, talvez sem nenhum custo. É bem mais fácil do que parecia. Você só precisa sair do discurso e planejamentos de eventos da sua igreja local para a prática em sua vizinhança. A Igreja é missional – é a missão em si. Ela não pode ser departamental. Ela também não é e nem nunca foi, em termos bíblicos, um lugar onde se vai. A Igreja é que vai até as pessoas. Onde estivermos, a Igreja estará e, consequentemente a missão será cumprida se tão simplesmente abrirmos a boca e estendermos o braço. Exercite a piedade, ajude o que precisa ser ajudado, ore pelos doentes, expulse os demônios, dê sem esperar nada em troca, convide para suas festas os que não podem retribuir, tenha menos amizades de conveniências, faça menos network ou auto promoção, fuja da riqueza, fuja da fama, busque uma vida simples, corra do reconhecimento humano e pense menos em você mesmo.

Sei que essas coisas são difíceis.

Eu dei meu primeiro passo, mas faltam alguns outros.

O fato de conhecer mais do que já sabia, também não tornou minha vida mais fácil, mas me colocou numa condição de decisão – continuar traindo minha consciência e consequentemente a Deus, sendo um grande impostor diante de todos ou, sair para viver com um consciência mais limpa, ainda que falte vários outros passos a serem dados.

Quero deixar claro que não estou avaliando o sentimento de cada indivíduo, mas o meu próprio – o de querer fazer de maneira certa – mas confronto o entendimento, a teoria e a prática sobre tal assunto de todas as pessoas. Gosto do que Deus diz, que feliz é o homem que não se condena naquilo que faz [em sua própria consciência]. Para quem foi entregue mais, este será mais cobrado.

Valeu,

Tropical

Etiquetas:, ,

2 comentários em “Ide! … Faça alguma coisa, pelo menos.”

  1. Everson 20 de Agosto de 2009 às 19:50 #

    >Camarada, pelo jeito esse é seu primeiro post né?Começou muito bem. Teu texto me fez confrontar um monte de coisa que prego e que vivo. Concerteza fazer missão é muito mais barato do que se fala, precisamos ser mais missional e menos departamental, perfeita colocação!Vou ficar de olho aqui para aprender com tuas experiências.

  2. Everson 20 de Agosto de 2009 às 19:52 #

    >Opa..desculpa, achei que era o primeiro post é que não estou acostumado a clicar em postagens mais antigas!Melhor ainda, mais para ler e aprender =D

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Coletivo TraçaUrbana

o c o r p o e n t r e d o t e c i d o u r b a n o

De volta ao Manual

Pensamentos sobre o amor de Deus na vida cotidiana

projetosilva

Ukulele e Voz ,Letras Simples e Pensamentos Sinceros...

Don Charisma

because anything is possible with Charisma

Do Pensamento no Deserto

CRÔNICAS, ARTIGOS, ENTREVISTAS E IDÉIAS DE LUIZ FELIPE PONDÉ

Nelson Costa Jr.

" Ceci Est Un Dieu "

Marco Juric

Fotografia

Teologia Hermenêutica

Sobre os equívocos, exageros, métodos e possibilidades de interpretação teológica no pensamento cristão.

TROPICAL - AIRO

espiritualidade

Sandro Baggio

Trilhando o estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.

A Bacia das Almas

Onde as ideias não descansam

espiritualidade

drnerium

Just another WordPress.com site

Uma pausa para o café.

Porque precisamos de uma pausa.

jonasmadureiradotcom.wordpress.com/

"Quebre os grilhões da cela, mas não se assuste se o prisioneiro não sair, talvez a cela seja absurdamente confortável."

Reino & Sacerdote

Trabalhando para que a Igreja cresça e que o Reino avance!!! Ap 1.5,6

%d bloggers like this: