Tudo ou nada?


Bom meu amigo Tusa me desafiou a escrever um e-mail com ênfase nessas duas palavras: tudo e nada. Ele também me deu a referência desses dois versículos:

Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” FL4.13

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.” SL23.1




Se tem uma coisa em que nós crentes somos peritos, é o de transformar o sentido original de um texto bíblico para se adequar aos nossos interesses e, assim suprir nossos anseios. Acho que nada tem de contextualização, mas de corrupção. Lógico que não sou nenhum mestre em hermenêutica, mas sempre me preocupo com o sentido que o autor, inspirado por Deus, quis dar ao texto original – dentro de seu contexto histórico, cultural, espiritual e profético. Também me preocupo com minhas reais intenções ao falar desses versículos que já se tornaram um grande refrão na igreja moderna. Não acho nada fácil. Só é possível com muita graça e humildade para deixar de lado a vaidade que nos acedia em dizer: “Deus me revelou uma coisa…” – para justificar os nossos achismos, atitudes, escolhas e o controle de pessoas.


Hoje em dia o “tudo posso naquele que me fortalece”, essa frase demasiadamente ousada, se tornou uma auto justificativa para se desejar sempre mais e mais. Será que realmente temos poder para realizar qualquer coisa por meio de Cristo? Será que a frase “tudo posso” de Paulo se refere a sua própria capacidade aliada ao poder de Cristo ou está somente associada a força de Cristo em nós? Pois na moderna tradução NTLH (SBB), diz “com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação”.


Será que o “tudo posso” de Paulo tem o mesmo sentido do “tudo posso” que temos falado e ouvido das pessoas? Pois me parece que a ênfase de Paulo, dentro do contexto, estava em necessidades pessoais – físicas – pois usa termos como pobreza, fartura e fome, abundância e escassez, dar e receber, e necessidades. Disse que Cristo havia lhe dado forças para enfrentar essas situações. Mas de maneira nenhuma ela estava falando no contexto de realizações/conquistas como alguns que pegam o versículo isolado para dizer coisas do tipo: “Posso ser um grande diretor de empresa, posso me tornar rico da noite para o dia, posso ser líder da maior igreja no Brasil, posso me tornar um grande profeta reconhecido, posso ganhar um grande prêmio, posso ter um ótimo carro importado, posso viajar para os melhores países do mundo, posso sair da condição de empregado para me tornar chefe, posso gastar o que quiser, etc. Diferente disso, Paulo estava dizendo que apesar das necessidades pessoais serem grandes e, às vezes, sem condições, em Cristo ele teria tudo o que precisava para enfrentá-las. Até mesmo na fome ele se sentia suprido por Cristo. Impressionante!


O saudoso Tio Cassio, pastor fundador da Cristo Salva, dizia: “Na gangorra com Cristo” – quando se referia a tal texto. Hora estaria no alto, hora embaixo, as com cristo sempre.


Se continuarmos a aplicar o versículo de forma errada, isolada de seu contexto, para o campo das realizações e conquistas, então teremos um problema: frustração. Muitos nesse erro acabaram duvidando das promessas de Deus por considerarem realizações pessoais como o propósito divino.


Mas para não ser tão duro, mesmo que seja num sentido diferente ao que Paulo quis dizer, do tipo realizações, melhor seria um entendimento do tipo: Tudo posso naquele que me fortalece, desde que seja da vontade dele, dentro dos limites que Ele estabeleceu e permitiu e que não fira seus princípios.


“Uma antiga preferência é Filipenses 4.13: “… tudo posso naquele que me fortalece”. O “tudo” não pode ser completamente ilimitado (exemplo: saltar sobre a lua, resolver “de cabeça” complexas equações matemáticas ou transformar areia em ouro); portanto, a passagem geralmente é exposta como um texto que promete aos crentes a força de Cristo em tudo o que eles têm a fazer ou em tudo o que Deus lhes ordena que façam. Sem dúvida, este é um conceito bíblico; contudo, no que se refere a esse versículo, dá-se pouca atenção ao contexto. O “tudo” aqui consiste em viver alegre em meio a fartura ou fome, em abundância ou escassez (Fp 4.10-12). Seja qual for sua situação, Paulo pode lutar com alegria por meio de Cristo, que o fortalece.” – D.A. Carson “Os Perigos da Interpretação Bíblica” (antiga “Exegese e suas falácias”).




Vamos ao segundo versículo.

Algumas pessoas defendem a idéia de que a Bíblia foi escrita numa linguagem pura e simples de entender e, por isso é que devemos sempre nos perguntar se é realmente necessário interpretar a Bíblia. Eles dizem “A Bíblia diz o que significa e significa o que diz.”

Porém, evitar isso só seria possível se alguém apenas lesse alguma passagem sem comentários. Mesmo assim, dependendo da ênfase que dermos ao ler um texto, o público poderá ser influenciado de maneiras diferentes. Exemplo:

– O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

– O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

– O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.


Não vejo nenhum problema nas ênfases dadas, a não ser que apenas a última delas (nada) tem sido ressaltada e distorcida. Como se nenhum crente da terra pudesse passar por necessidades, nunca. Mais uma vez acho que as pessoas quando pensam nisso, apenas relacionam “nada” com “tudo” o que diz respeito as coisas, bens e conquistas – infelizmente o mundo nos ensinou a deixar de lado a suficiência de Cristo. Prefiro entender que independente das dificuldades, basta-me o “meu pastor” estar comigo.



vlw


Tropical


Fonte de pesquisa: Hermenêutica






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