Aparência desprezada


Que Deus não vê como o homem vê, nós já sabemos – ou deveríamos saber que “o homem vê a aparência, mas o Ele vê o coração”. Mas se sabemos disso, porque então continuamos com nossos critérios tão mundanos? Deveríamos ao menos tomar como exemplo o padrão de Jesus que está disposto em nossas mãos através da Bíblia.

Esse não é um problema moderno, mas o de um homem corrompido. Porém nosso mundo moderno tem contribuído demais com essa deformação. A sociedade atual se destaca na representação visual, o exterior. Nosso modelo de sucesso é o de um homem bem vestido, físico escultural, bom carro, ótimo profissional, financeiramente estável, boa casa, grande viagens internacionais, etc. Infelizmente esse modelo ultrapassou os portões das igrejas locais e têm ganhado muita força nessas últimas décadas. Infelizmente o púlpito, em muitos lugares, é o grande palco das vaidades. Homens, (sacerdotes anacrônicos), se vestem com ótimos ternos, gravatas douradas, sapatos finos, relógios caros e anéis de ouro com uma grande pedra de rubi para mostrar a qual classe de eleitos eles pertencem. Como se não bastasse tantos exageros, ainda fazem discursos apontando a prosperidade financeira como se fosse um selo de aprovação da parte de Deus em relação a fidelidade do homem em entregar seus dízimos e se associarem em alguma campanha ou desafio de fé – sempre envolvendo dinheiro. Colocam pessoas bens sucedidas para darem testemunhos de conquistas após aderirem a um desses pacotes espirituais (financeiros), com a intenção de alcançar alguns, bem intencionados, ambiciosos a mais. Assim o reino das aparências tem ganhado certo espaço.

Já disse muitas vezes o quanto me chama a atenção o número de igrejas locais que colocam em suas agendas a tal, famosa e cobiçada “Reunião dos Empresários” – cada qual inventando suas siglas, mas todas com um mesmo objetivo: sucesso profissional. Repito que ainda não vi nenhuma agenda com uma reunião oficial de moto-boys, domésticas, favelados, etc. Alguns me respondem, com a intenção de se defenderem, que esses têm as demais reuniões – campanhas de fé, milagres e família. Da mesma maneira outro tipo de campanha tem me chamado a atenção, as anuais: ano Apostólico de Elias, ano de Davi, de Isaque, José, Elias, etc. Mas nunca vi o ano do Samaritano, de Lázaro (o da parábola do rico e o pobre), de Zaqueu, etc. Pois é comum pregar sobre conquistas e prosperidade financeira, que enche os olhos de uma geração que foi ensinada e enxergar as aparências, mas é raro ouvir falar sobre vida piedosa que conduz o homem a uma vida abnegada, desprendida de representação visual.

[“Jesus foi o primeiro líder mundial a inaugurar um reino com a função heróica para derrotados. Falou a uma audiência criada com histórias de ricos patriarcas, reis poderosos e heróis vitoriosos. Para surpresa daquele povo, ele, em vez desses, honrou as pessoas que tinham pouco valor no mundo visível: os pobres e mansos, os perseguidos e aqueles que choram, os rejeitados pela sociedade, os famintos e sedentos. Muitas vezes suas histórias retratavam as “pessoas erradas” como heróis: o prodígio, não o responsável; o bom samaritano, não o bom judeu; Lázaro, não o homem rico; o coletor de impostos, não o farizeu. Como disse Charles Spurgeon, pregador inglês: “Sua glória foi por de lado sua própria glória. A glória da igreja é quando ela põe de lado sua dignidade e respeitabilidade e considera, como sua glória, ajuntar os excluídos.”

No terceiro século depois de Jesus, quando a igreja já tinha se espalhado pelo Império Romano, João Crisóstomo disse: “Admiramos a riqueza tanto quanto eles (os não cristãos) e até mais. Temos o mesmo medo da morte, o mesmo pavor da miséria, a mesma impaciência com a doença. Somos igualmente aficcionados da glória e do poder […]. Então, como eles podem crer?”] – Philip Yancey [Rumores de outro mundo]

Hoje, claramente vejo dois mundos: o natural que valoriza as aparências e o espiritual, que valoriza o homem interior – o visível e o invisível. Para sobreviver a esse dilema, deveríamos nos lembrar de seguir o conselho de Paulo: “Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas” e “a ninguém mais consideramos do ponto de vista humano” (CL 3.2, ICO 1 e IICO 5.16). Temos que tomar cuidado com os valores que o mundo nos ensina – procurar as primeiras colocações, competir para chegar à frente, ser servido, insistir na moderação, auto-proteção, construir um ninho seguro, minimizar o risco – distorções que o Sermão do Monte contradiz de forma direta. As palavras de Jesus parecem revolucionárias justamente porque ainda não conseguimos enxergar além dessa vida. O máximo que conseguimos ver é o possível sucesso nos setenta anos que poderemos viver por aqui.

“Se o mundo é são, então Jesus é tão louco quanto o chapeleiro, e a Última Ceia é a festa do chá maluco. O mundo diz: Preocupe-se com sua própria vida; Jesus diz: Não existe esse negócio de sua própria vida. O mundo diz: Siga o caminho mais inteligente e seja um sucesso; Jesus diz: Siga-me e seja crucificado. O mundo diz: Dirija com cuidado – a vida que você salva pode ser a sua; Jesus diz: Quem procurar salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a achará. O mundo diz: Lei e ordem; Jesus diz: Amor. O mundo diz: Tome; Jesus diz: Entregue. Levando em conta o que o mundo considerara sanidade, Jesus é demente como um simplório. Qualquer um que pense poder segui-lo se ser um pouco louco trabalha mais por uma ilusão que pela cruz. “Nós somos loucos por causa de Cristo…”, diz Paulo, diz a fé – a fé de que, em última análise, a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria do homem, a insanidade de Jesus mais sã que a implacável sanidade do mundo”. – Freserick Buechner

Seguir a Cristo é carregar o próprio caixão.

Tropical

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One Comment em “Aparência desprezada”

  1. >Infelizmente hj em dia este tem sido o "padrão" em muitos lugares. Creio na benção e provisão de Deus, mas tb creio que somos peregrinos nesta terra e não podemos esquecer que temos uma missão, e pra isso fomos chamados. No final tudo virará pó… então porque se apegar tanto…Na história tivemos varios icones que nos servem com exemplo, mesmo após os tempos biblicos, tais como Jonh Wesley, Francisco de Assis, Madre Tereza de Calcutá e outros antes e depois…" O amor… não procura seus ínteresses" I Co.13:5Christiano

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