Rebeldes sem causa ou sem vida?


Perguntei para um grupo de pessoas sobre qual seria a opção deles se pudessem escolher entre ser inteligente ou ter muito poder. Não para minha surpresa disserem que escolheriam a inteligência. É incrível a capacidade que temos para nos enganar a nós mesmos, contudo não podemos enganar a Deus – eu diria que nem mesmo as pessoas mais experientes podem ser enganadas.

Muitos pensaram, de maneira equivocada, que a exemplo do poderoso rei Salomão, poderiam pedir por sabedoria, pois esta resultaria em riqueza e poder. Digo de maneira equivocada porque, primeiro, Deus não pode ser enganado pela malandragem humana. Pois se ele tivesse escolhido a sabedoria visando o poder, já não seria a sabedoria a sua escolha, mas o poder e a riqueza. Nisso não consiste a sinceridade e nem mesmo um bom sentimento. Da mesma maneira as pessoas que escolheram a inteligência visando o poder, não foi a inteligência que escolheram, mas o poder. Esses já não passaram pelo primeiro critério de avaliação.

Outro critério para os que disseram optarem por sabedoria em detrimento do poder é mais simples que o anterior, basta colocarmos numa balança o tempo em que nos empenhamos nos estudos, pela busca de sabedoria e o tempo que gastamos atrás de conquistas. Quanto tem sido o tempo gasto em leituras e pesquisas ou em trabalhos e planejamentos para se adquirir mais bens?

Basta-me esses dois critérios para saber que não foram verdadeiros quando disseram que preferiam a inteligência. Não foram muito inteligentes.

Só entrei nesse assunto porque havia lido duas diferentes idéias a respeito da queda do homem do Paraíso – Adão e o Éden – mas que apenas uma me fez sentido. A primeira idéia é de que “o ser humano era como um animal sem consciência, guiado pelos seus extintos, sem possibilidade de escolhas morais”. Essa visão não considera o “pecado original”, mas o nascimento da consciência à partir da queda. A segunda idéia é a da tradição cristã que “interpreta o ato de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal não como o surgimento da consciência, mas como um ato de rebeldia, um grito de independência da criatura para com o Criador”.

Abre e aspas: Estou levando em conta apenas uma idéia: de que a história de Adão e Eva seja de interpretação literal.

Essa segunda foi a que me fez total sentido. A primeira, não condiz com a narrativa bíblica. Explicarei. Quis dizer que a proposta da serpente não foi uma consciência nova ao homem, pois quando leio a história da gênesis do mundo criado, vejo um primeiro homem pleno, não um animal nem um pobre inocente desprovido de conhecimento. Vejo um homem com a responsabilidade para cuidar de uma terra, com a autoridade para dar nome aos animais, com a capacidade de perceber que precisava de uma companheira e de também lhe dar um nome. Vejo um primeiro homem de relacionamento aberto com o seu Criador, capaz de, durante as tardes, passear com Ele em seu jardim. Um homem capaz de receber ordens do que deveria ou não fazer e comer, pois já sabia o que era permitido ou proibido. Sabia que à partir do dia em que desobedecesse a ordem de Deus, morreria. Vejo um homem responsável, capaz de estabelecer se manter no paraíso ou estabelecer o caos. Como então poderei dizer que Adão foi um homem inocente? Se o fosse, não poderia ser julgado e nem condenado, expulso do paraíso – relacionamento com Deus.

Já ouvi dizer que se existiu livre arbítrio, foi somente para Adão e Eva, pois estes estavam vivos, mas optaram pela morte ao aceitarem a proposta da serpente. Quanto a nós, nascemos no pecado – sem a capacidade natural para escolher entre vida e morte – uma vez que nascemos espiritualmente mortos -, senão quando pelo Espírito Santo somos convencidos.

Faz sentido para mim que o pecado tenha nascido antes de comerem do fruto proibido, não no ato em si. Pois primeiro no coração deles nasceu o desejo de se tornarem iguais a Deus, ou seja, independentes, autônomos e rebeldes, em oposição à divindade. A questão não era ser poderoso tal qual a Deus, mas independentes de seu criador. Finalmente o ato praticado por eles não poderia ser outro senão a morte.

Toquei no assunto porque em nossa natureza trazemos todas as características do primeiro Adão – rebeldes e independentes. Na verdade, Adão somos nós.

Abre e aspas: Agora estou considerando a história como um mito – que mostra a finalidade de Deus para toda raça humana – Gênesis 1 e 2 – e a natureza humana –  Gênesis 3 a 11.

Lewis em seu livro “Cristianismo puro e simples”, diz que para ele, o pior e mais maligno de todos os pecados é o orgulho, pois este, ao contrário dos demais pecados, afasta o indivíduo de Deus e, consequentemente de seus semelhantes. O homem orgulhoso morre só. Geralmente um homem orgulhoso tem a prerrogativa da independência e, por este motivo é só. Pobre coitado. Vive no engano da serpente. Trouxe para si a morte em todos os seus sentidos – espiritual, física, existencial, social e cósmica.

Como poderemos dizer que somos independentes se convivemos num mundo cheio de pessoas onde cada uma delas faz algum tipo de serviço que nos beneficia? Se moro numa cidade, dependo de uma casa, se dependo de uma casa, dependo que alguém a construa, se eu mesmo posso construí-la, preciso ao menos de que o governo de minha cidade me ceda um pedaço de terra legal, dependo dos tijolos que alguém fez, dependo da companhia de energia, das ruas que ando com meu carro, dependo do bom censo dos meus vizinhos para ter um mínimo de sossego, etc. Isso não tem fim. No mínimo poderia dizer que não tenho vida por mim mesmo e nem poder sobre o avanço dos dias, da doença e morte.

Lewis também diz em seu livro que o que o Deus Pai gera é Deus, alguém da mesma espécie que ele [mas criou o homem à sua imagem e semelhança]. Nesse sentido, esse ato é semelhante ao de um pai humano que gera um filho humano [mas poderá criar uma estátua à sua semelhança]. O homem foi criado por Deus, mas não é Deus. Talvez deus como disse o rei Davi. Adão é criatura e não tinha a vida por si mesmo. Não pode ser autônomo. Na versão de Paulo todos morremos em Adão ou vivemos em Cristo. Somos Adãos corporativos ou Corpo de Cristo.

Todos somos criados por Deus, mas somente o Espírito Santo poderá gerar em nós a vida de Deus e nos fazer seus filhos em Jesus Cristo. O homem nascido de Adão está independente de Deus e espiritualmete morto, mas o que é nascido/gerado do Espírito tem em si a vida de Deus.

Só entrei nesse assunto porque a proposta da serpente ainda ecoa através do tempos. Ela ainda mente dizendo que podemos ser iguais a Deus, independentes. Tomemos cuidado para não cair no engano da serpente.

Tropical

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