A simplicidade do surfe


Quando completei meus 18 anos de idade, ganhei do meu pai uma prancha de surfe. Era o que chamamos de “pranchinha” – 6.1, branca na frente, bordas verdes e no fundo um desenho de palmeiras e praia bem colorido. O shaper, eu não me lembro quem, mas era uma 775 “casquinha de ovo” – significa que a laminação era muito fraca. Nessa época eu já tinha certa familiaridade com a praia, pois desde pequeno meu pai nos levava para passarmos o fim de semana. Contudo em relação ao surfe e prancha eu era um haole total. Tanto que cheguei ao absurdo de pensar que a parafina era apenas para proteger a prancha da água salgada. Por isso espalhei-a por toda a prancha, do bico à rabeta, e, por pouco não passei no fundo.
Enfim, foi aí que comecei minha carreira surfística. O local era o Pier de Mongaguá no litoral sul de São Paulo, e apesar do inverno ter uma forte correnteza, eu sempre passava a arrebentação. Esse foi um dos fatores que me fez demorar seis meses para, pela primeira vez, colocar meus dois pés sobre a prancha. Pode ter demorado, mas a sensação da primeira vez eu nunca esqueci. Pois esta mesma sensação ocorre sempre que ficamos em pé, a cada nova session. Eu me senti o melhor surfista daqueles tempos, tipo Tom Curren. Também não demorou muito para que, apenas em minha cabeça, eu pensasse estar correndo altas paredes e quebrando a vala. Além dessa ficção imaginativa, ainda ficava fazendo aquela famosa pergunta de iniciante prego: “Você viu o que eu fiz? Você viu? Heim! Você viu?” – Como se tivesse feito alguma manobra. Apesar disso, sei de uma coisa apenas: eu era o surfista mais feliz e realizado do mundo. Até que um dia me mostraram uma filmagem surfando. . . Foi frustrante. Pude ver que não fazia manobra nenhuma e o meu surfe era um verdadeiro “retoside”. Quem nunca passou por isso!


 
 
A questão é justamente esta: o que é surfar?
No dicionário Houaiss surfe significa: prática esportiva que consiste em deslizar sobre prancha na crista de uma onda até a beira-mar ou passar por baixo ou por dentro delas. Resumindo: surfar é simplesmente deslizar na onda sobre uma prancha. Quanto ao dar umas batidas, mandar uns aéreos 360, rasgadão, tubos, etc., eu diria o seguinte: é a evolução do surfe. 
Paulo, o apóstolo, escreveu que tinha um receio de que as pessoas tivessem a mente corrompida e se desviassem da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Não muito diferente do dias atuais, naquela época haviam pessoas pregando um outro Jesus que, creio eu, nada tem a ver com a pregação dos apóstolos que foram as testemunhas oculares de Cristo. Pregavam um outro espírito que não é o Espírito Santo de Deus e anunciavam um evangelho diferente. Hoje é a mesma coisa.
A verdade é que Deus nos reconciliou com Ele por meio de Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação. Tem muita gente espalhada pelo mundo todo que precisa se reconciliar com Deus. Mas se fugirmos da simplicidade do evangelho, o ministério da reconciliação se perde.
 
 
Surfar é apenas deslizar sobre as ondas. 

Esta é a simplicidade do surfe. Mas se dissermos que para surfar o cara precisa vestir determinados tipos de roupa, se comunicar dentro de uma linguagem específica, ou até mesmo dissermos que o cara só é um surfista de verdade depois de pegar alguns tubos, realmente estaremos dificultando e frustrando muitas pessoas. Quando ganhei minha primeira prancha de surfe que me dava condições para deslizar sobre uma onda – mesmo que durante algum tempo fosse de joelhos – eu já me denominava um surfista.
 
Paulo definiu muito bem a simplicidade do evangelho. 

Ele diz o seguinte: “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Isso basta para que sejamos salvos. Jesus morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou. Se fizermos o nosso papel direito, o Espírito Santo é suficiente e capaz para convencer qualquer pessoa a respeito do pecado e da vida que há em Deus através de Jesus Cristo. Agora se pregarmos coisas diferentes dessas e dissermos que para ser filho de Deus o cara precisa estar “limpinho” ou ter atitudes e maneiras específicas dentro dos nossos próprios preceitos, as coisas podem se complicar, e ao invés de termos o ministério da reconciliação poderemos criar um evangelho muito esquisito.
 
 
Porém, assim como o meu surfe evoluiu naturalmente dentro de certa prática, os valores desse reino celestial e o caráter de Cristo deverá se desenvolver na medida em que ando com o Papai, pois o Espírito dele que está em nós é suficiente e capaz para nos ensinar a respeito de todas as coisas. Hoje eu não sou um surfista que desce a onda num “retoside” ou ainda e de joelhos. Meu surfe evoluiu e hoje eu consigo fazer umas coisas a mais. No evangelho não é diferente pois não sou o mesmo crente de vinte anos atrás. Deus tem me ensinado coisas novas e a minha maneira de pensar e agir tem sido aperfeiçoada pelo Espírito Santo que habita dentro de mim. Mas também aprendi que para que eu consiga evoluir tanto no surfe como no relacionamento com Deus, eu preciso praticar (IITm 2:15).
 
Galera, vamos andar dentro dessa simplicidade.
 
Valeu galera e boas ondas

Tropical
 

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