Ungido ou palhaço?


“A unção atrai!”

Talvez você também já tenha ouvido esta bobagem, quando fazem referência a alguém de sucesso de palco púlpito.

Tudo bem!

Essa frase insinua que existe uma classe de pessoas especiais de Deus.

Antes de mais nada, de continuar o assunto, me farei valer da mesma frase e, apenas a completarei:

“A unção atrai, mas quando você não a tem, se pinta de palhaço.”

Sempre me questionei quanto as estratégias de evangelização que usávamos para alcançar vidas para Cristo. Já participei de várias reuniões que tratavam desse assunto e, também já sugeri muitas maneiras. Nada de tão diferente do que talvez você conheça ou já tenha feito – noites temáticas com a apresentação de bandas, peças teatrais, testemunhos de famosos recém convertidos, desfile de moda, jantares especiais, musicais com grupos de danças, cinema com pipoca, festa cowntry, uma tarde com churrasco, viagem para praticar esportes radicais, programas de auditório, compra de espaço em rádio ou televisão, etc. Enfim, são inúmeras as possibilidades válidas para atrairmos o maior número de pessoas que talvez jamais entrariam numa igreja local para assistirem ao culto formal.

Disse que me questionava porque ficava imaginando Jesus reunindo seus discípulos antes de irem a uma cidade. Imagino Jesus falando para cada um de maneira específica: “Pedro e André, vocês cuidarão da divulgação. Temos que definir o tema da nossa festa e, o mais rápido possível, começar a distribuição de folhetos e cartazes. Tiago, você está incumbido da parte musical. Precisamos ver qual banda irá tocar. Veja também se precisaremos pagar um cachê; e caso precisemos, Judas nos dirá se temos dinheiro suficiente em caixa. Mulheres, vocês ficarão encarregadas de anotarem os nomes das pessoas. João e Filipe cuidarão da programação, mas cuidem para que eu entre com a pregação num momento propício. Mateus, você precisa ver com os políticos que conhece para nos cederem o melhor ginásio da cidade. Bartolomeu o ajudará nesta tarefa. Tomé, fique tranqüilo, vai dar certo. Você, Tiago e Judas (o outro), devem pensar qual peça teatral se encaixa antes que eu comece a pregar, certo? Lucas, não esqueça da maleta de primeiros socorros. Também tente falar com Nicodemos e pergunte se ele poderá ir para dar um testemunho antes que eu pregue.”

Pois é.

Esta é a cena que eu sempre imaginava quando participava dessas reuniões para tratar de estratégias que atrairiam o maior número possível de pessoas. Mas logo em seguida imaginava uma cena totalmente diferente e conflitante a esta – Quanto mais atrativos nos tornarmos, melhor resultado teremos para alcançar tal objetivo – mostrar Jesus para as pessoas.

Isso é aparentemente glorioso. Nos esforçávamos para alcançar vidas perdidas. Mas acho que só fazíamos isso (quero dizer: dessa maneira), porque a vida de Deus que deveria ser refletida, evidenciada através de cada um de nós, não estava acontecendo. Infelizmente não servíamos para atrair a ninguém. Logo precisávamos de outra estratégia.

Pois é!

Sempre ouvia a mesma baboseira de alguém diferente, que dizia:

“A unção atrai!”

Isso não passa de baboseira porque simplesmente divide pessoas em classes. Essa divisão é natural e comum nos reinos humanos, mas quando se trata do evangelho, a saber, do reino de céu, todos nós temos uma mesma semente – a da natureza divina. Ou seja, quando decidimos por Cristo, o Espírito Santo iniciou em nós um processo de transformação para nos fazer um novo povo, debaixo de um melhor governo – de justiça e retidão.

Então, se alguém é ungido, esse alguém é Cristo – que quer dizer o mesmo.

E nós todos estamos na vida do Ungido de Deus.

Se recebemos o Espírito quando cremos, somos todos ungidos – não apenas alguns especiais.

Sendo assim, o Espírito Santo tem o papel de gerar em nós o caráter de Cristo, a vida dele e a notoriedade da vida de Deus. Jesus disse que repartiu conosco a natureza divina a fim de possamos ser um com ele para que o mundo tome conhecimento de que ele foi enviado por Deus e que também somos amados por ele. Preste a atenção de que Deus já nos deu a melhor estratégia de proclamação para as boas novas de Cristo:

UNIDADE EM SUA NATUREZA DIVINA.

Isso dá muito pano pra manga.

Por isso é que imagino uma coisa totalmente diferente.

C. S. Lewis escreveu que é impossível que Deus se revele ao homem cuja a mente e cujo o caráter estejam em más condições. Da mesma forma os raios do sol não se refletem tão bem num espelho empoeirado quanto num espelho polido.

Eu quero dizer que também é impossível que Deus se revele através do homem cuja a mente e cujo o caráter estejam em más condições.

Pois se nós estivéssemos realmente refletindo a imagem de Cristo, pouco seria necessário. Não haveria tanta necessidade para criamos estratégias de evangelismo. Pois logo que as pessoas vissem em nós a vida de Deus seriam atraídas, não pelo belo teatro ou a pintura de palhaço em nossos rostos. Estaríamos passeando pelo shopping e logo algumas pessoas viriam até nós, chorando talvez, sem saber porque, mas atraídas pela glória de Deus refletida em nós. Sem nenhuma estratégia iríamos até um parque público e, em pouco tempo, estaríamos orando pela cura de pessoas de um modo geral. Fariam filas. E por que não dizer, multidões se aglomerariam para ouvir sobre a vida de Deus (nada a ver com o atual marketing religioso de teologia da prosperidade em que o evangelho está centrado no homem e não em Deus como o que temos visto por ai. Então esquece se você pensou isso).

Em nosso trabalho seríamos vistos como esperança aos perdidos e as máscaras cairiam. Nossas famílias se tornariam sonhos de consumo para uma nova geração. Nas faculdades, os jovens sentariam para nos ouvirem ao invés de encherem a cara e fumarem maconha – um reflexo do desespero pela vida que poderia ser sanada pela imagem de Cristo refletida em nós.

Imagino que Jesus atrairia, como já atraiu a dois milênios, sem nenhuma necessidade de estratégias evangelísticas parecidas com as que temos feito. A palavra Cristo quer dizer ungido – capacitado sobrenaturalmente para um fim específico. Da mesma maneira, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, ungindo-os/capacitando-os, sem nenhuma estratégia parecida com as nossas, eles iam anunciando o Reino de Deus nas mesmas condições que o mestre, em demonstração de vida e poder, não entretenimento.

Gostaria que estivéssemos assim.

Imagino que até aqui já tenha suscitado discordância da parte de algumas pessoas. Então por este motivo me vejo na obrigação de explicar mais um pouco sobre o assunto, ainda que seja uma reflexão pessoal.

Não penso que o fato de que uma pessoa ou um grupo fazer teatro para atrair outros para Cristo, sejam elas menos ou mais capacitadas por Deus. Se pensasse assim estaria dizendo que talentos são desnecessários ou nada tem a ver com a vontade de Deus. Se pensasse assim, estaria dizendo que nenhuma vida ou esforço valeria a pena. Não penso assim.

Penso que qualquer pessoa é capacitada para realizar qualquer que seja o trabalho com quaisquer que sejam as ferramentas para alcançar um fim específico a fim de que a vida de Deus seja evidenciada em e através de si mesmo.

Na contra-mão disso está uma pessoa cheia de qualidades próprias, capaz de produzir algum efeito, mas que nada tem do caráter de Cristo, senão apenas vaidade de vaidades.

O exemplo disso é alguém que, com uma grande capacidade para falar em público, fale de Deus sem o mínimo de relacionamento com ele, senão apenas pelo distorcido conhecimento literário. Ainda que eu creia mais na ação de Deus pela misericórdia e graça do que pela aprovação de conduta do indivíduo que fala nessas condições, para mim esta pessoa será apenas mais um que “se pinta de palhaço” para atrair o público.

Já me pintei de palhaço!

Mas como toda história de palhaço, tive minhas crises por trás da imagem de palhaço.

Existem muitos palhaços bem talentosos que servem apenas para atrair pessoas com suas estratégias de entretenimento, mas que nada tem com a vida de Deus. Só atraem para si mesmos. Por isso existem muito devotos de placas e pastores. Adoram o circo que freqüentam.

Melhor seria que tivéssemos menos estratégias para evangelização em massa e mais da vida de Deus refletida em e através de nós. Tenho certeza que atrairíamos a muitos sem muito esforço. A evangelização seria um consequência diária do nosso estilo de vida, não um evento gospel periódico e isolado. Os que estão próximos – nas faculdades, trabalho, vizinhos, etc. – seriam atraídos sem que precisássemos pescá-los com uma isca colorida. Não teríamos que disputar a atenção do público distorcendo o evangelho para que ele tenha uma aparência de coisa mundana, mas atrairíamos o público pela vida que nunca viram em nenhum outro lugar. A unção seria suficiente e o evento, bem secundário.

Tenho certeza que a vida de Deus em nós é suficiente.

Boas ondas,

Tropical

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4 comentários em “Ungido ou palhaço?”

  1. liliannascimento 15 de Maio de 2012 às 16:51 #

    CLAP CLAP CLAP
    Ameio o texto!!!!!!! a idéia!!! o conteúdo!!!!
    Sinceramente tenho pensado muuuuito sobre isso… por enquanto só pensado… como falta Cristo nas nossas vidas e sobra status e orgulho.

  2. liliannascimento 15 de Maio de 2012 às 17:08 #

    Reblogged this on Uma pausa para o café.e comentado:
    Vale a pena refletir!!!

  3. Tropical - AIRO 15 de Maio de 2012 às 17:59 #

    Fala Lilian.
    Nós realmente gostamos muito dos CLAP CLAP – tem a ver com nossa natureza.
    Vc conhece o livro Cristianismo Puro e Simples, do C. S. Lewis? Lá tem um texto/capítulo que fala sobre “a boa infecção”. Ele responde bem sobre nossa natureza.

  4. Gezz 26 de Junho de 2012 às 16:47 #

    Poo eu li mas não lembro….eu vou reler =) já que to com ele aqui fora da estante…the good infection eu lembro do nome =)))

    PAz tropicss =)

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