Uma história quase sem graça


 

O plano.

Era o sonho de qualquer skatista – picos de rua, parks, ladeiras lendárias como as de Berkley e pistas perfeitas em terras californianas. Ano de 2007 – segundo semestre. Os caras já se reuniam desde os primeiros meses para planejarem a tão esperada skate-trip. Discutiam os preços das passagens, falavam das pistas que já conheciam, se começariam o rolê em San Diego, passando pelas pistas de Los Angeles e subindo para Santa Cruz até o extremo norte, o quanto de grana levariam, os contatos, qual carro, que tipo de quiver seria necessário, quais as precauções, os objetivos, um propósito, enfim tudo que estivesse relacionado. E como já era de se esperar, sempre que se reuniam, rolava um clima de empolgação total.

Quatro: Teo, Salatiel, Carlinhos e Beto – número perfeito para uma trip dessas. Fazia apenas três anos desde quando Salatiel assumira a presidência da MSC – BR (Missão Skatistas de Cristo – Brasil), que está ligada ao CCS (Church Christian Skaters), fundada em 2005 na Califórnia. Esse era o primeiro motivo para tal trip, afinal, em Hungtinton Beach que fica a pouco menos de uma hora de Los Angeles aconteceria um grande congresso da CCS.

O histórico.

Fazia uma década que Teo e Salatiel se conheceram numa reunião de skatistas cristãos. Carlinhos foi o cara que chegou alguns anos depois, quando esta reunião já acontecia dentro de quatro paredes numa igreja local num dos bairros da zona oeste da cidade de São Paulo. Porém no ano de 2007 ele também já fazia parte da diretoria da MSC – BR. Já o Beto era vizinho de Teo. Se conheciam há sete anos, e desde então faziam uns rolês juntos. Ele era funcionário público em São Paulo. Carlinhos, propagandista. Salatiel vive do próprio trabalho da MSC, e Teo, um escritor. Todos, casados, pais (exceto o Beto), e mais de 35.

A realização.

Enfim a fase dos planejamentos chegara ao fim.

Já estavam na terra do Tio San, Califórnia. Salatiel e Carlinhos teriam a participação do Congresso CCS como prioridade para os três primeiros dias. Teo e Beto participariam em algumas partes mesmo que não fossem obrigados. Iriam pela manhã, assim aproveitariam o café e almoço. Afinal também pagariam pela participação. Mas na parte da tarde tinham planos para conhecerem alguns skates parks da região, e também se arriscarem numa surf session no tão famoso pier de Hungtinton. Nesses primeiros dias a hospedagem seria na base missionária da CCS, pelo valor de doze dólares a diária – parecia uma bagatela. Era um lugar improvisado, feito somente para os receber. O quarto tinha aproximadamente a medida de dois por seis metros, aparelho de ar condicionado, e com dois beliches altos. Nada além disso. O que os motivava ainda mais para serem desbravadores de pistas.

Filosofação.

É fato que pessoas não concordam em cem por cento das coisas, porém, apesar disso, esse grupo parecia ter valores que eram mais fortes do que qualquer contradição – a fé em Jesus Cristo e o prazer comum pelos carrinhos. As contradições estavam em coisas aparentemente pequenas – hospedagem e skates parks que iriam. Pouco provável que isso seria um problema ao ponto de quebrar vínculos de amizades se comparado às afinidades que tinham e também a madura idade. Por isso resolvi escrever. Pois essa história pouco interessante representa bem o que a falta de maturidade entre pessoas pode causar. Esta viagem foi o ponto crucial para uma quebra de relacionamentos. Provavelmente isso só aconteceu por que as bases de amizades não eram tão sólidas quanto pensavam, ou por que ainda faltava um pouco mais de humildade da parte desses caras.

Eles ficaram juntos apenas 11 dias, porém Beto, quinze dias a mais, juntamente com sua esposa que se encontrou com ele após a volta dos outros três.

A treta.

Um mês depois de voltarem da califa, depois de certa insistência, Teo conseguiu convencer o Beto para fazerem uma skate session. Ele já sabia que algumas coisas haviam prejudicado a amizade entre todos devido alguns atritos que rolaram nos parks e o perceptível clima desagradável. Lá, mesmo quando estavam juntos, as conversas eram com certo cuidado, existia tensão, saiam para comer separadamente, durante as sessions não conversavam e até o cafezinho expresso que sempre foi um dos bons motivos de se reunirem em São Paulo, tomavam separados.

Como já disse, depois de certa insistência, Teo conseguiu fazer um rolê com o Beto. No carro, durante o caminho para chegarem na pista de São Bernardo, o ambiente entre eles ainda era um tanto esquisito. Havia da parte de Beto um evidente ressentimento que precisava ser resolvido e, do qual Teo estava disposto a tratar. Ele sabia que precisa lhe pedir desculpas. Mesmo assim queria ouvir dele quais eram as acusações que pesavam contra. Teo estava disposto para ouvi-lo, sem se defender, pois já se conhecia o bastante para saber de sua grande capacidade para ser desagradável com as pessoas. Ele tinha culpa no cartório e sabia disso. Durante quase todo o percurso para chegarem na pista houve um silêncio perturbador. Mas quando chegaram, iniciaram a conversa que esclareceria alguns fatos. Pelo menos para Teo.

As acusações.

Então Beto começou a falar. Falou que Teo era um cara que só sabia reclamar das coisas, folgado e egoísta, chato e reclamão. Um péssimo companheiro de viagem ao ponto dele ter decidido nunca mais viajar junto. Nem mesmo ficar no mesmo pico, caso se trombassem numa session. Apesar de Teo ter concordado com a opinião que Beto tinha a respeito dele, sem discordar, quis saber quais eram as explicações e os motivos ou situações que o teria levado a esta conclusão em relação a ele. Foi ai que ficou sabendo como as coisas aconteciam enquanto ele (Teo), não participava; e o teor das conversas enquanto os outros três se juntavam. Ouviu dizer que ele era egoísta e folgado pelo fato de deixá-los esperando, com fome e cansados, enquanto ficava andando por mais tempo. Isso em todas as sessions que fizeram durante o tempo em que estiveram na na califa. Que os fazia esperar por mais de uma hora. Que todas as vezes que trocavam de cidade procurando algum lugar para se hospedarem, ele discordava, por isso era reclamão. Egoísta, é obvio, porque pensava apenas em satisfazer suas próprias vontades; e péssimo companheiro porque estava sempre com a cara rabugenta deixando o clima ainda mais pesado do que já estava. Disse que ele não comia nem bebia junto, que enquanto eles estavam em algum lugar, que não andando de skate, Teo estava em outro. Que nas pista ele se achava mais esperto que os outros. Enfim, Teo ouviu todos os motivos, concordou e, ainda que quisesse, ainda que fosse sua vontade maior, não retrucou naquele momento. Então Teo pediu desculpas ao Beto.

Missão cumprida.

A pergunta que não cala.

Parecia resolvida entre esses dois a situação de chateação. Estavam apaziguados. Mas logo, no próximo rolê que fizeram, Beto voltou a dizer que Teo era um cara folgado e egoísta. Porém, desta vez Teo não havia feito nenhum voto de não contestar. Por isso fez a seguinte pergunta: “E quanto a vocês? Qual a tua avaliação? Quais foram as suas falhas?” Imediatamente Beto respondeu: “Nenhuma! Você que era o problema.”

Meu ponto.

Deixando de lado tal história, quase que insignificante, quero dar a minha opinião, pois tem uma coisa que me chama a atenção todas as vezes em que me lembro dela.

Aos meus 37 anos de vida, já aprendi que ninguém é tão santo quanto se imagina. Tem um texto bíblico que diz que a pessoa que disser não ter pecados, é mentirosa. Não é possível que tudo recaia sobre apenas um culpado, como se outros fossem limpos totalmente. Ainda me impressiono quando pessoas que já deveriam ter aprendido a respeito de si mesmas, se enganam tão profundamente. Também não sou flor que se cheire. Mas qual o campo das grandes fragrâncias? Sei que o homem é muito vaidoso e que vive tentando justificar-se sem saber que o que isso faz sempre acusará alguém. Nessa história, um foi acusado pela justificativa alheia. Pois enquanto um disse não ter nenhuma falha, dizendo assim que o errado era apenas um dentre todos, este cometeu o maior dos pecados, não reconhecer seus próprios. Uma vez eu li algo que se encaixa bem dentro desse contexto. Dizia que maior é o que reconhece seus pecados do que o que ressuscita aos mortos, da mesma maneira, o menor é o que não reconhece seus próprios pecados, apesar de ser cheio de talentos. Com essa história eu também entendi que se alguém não reconhece seus próprios erros, não adianta apontá-los, pois esse papel e de Um apenas.

Apesar de ter ouvido essa história de apenas dois dos que estavam nessa viagem, ouso dizer que um dos grandes erros foi a omissão de cada um. Ninguém se dispôs para discutir a relação entre eles, pelo fato de existir, da parte de cada um dos quatro, uma idéia pré-estabelecida da personalidade do outro. Mas quem quiser ter amigos, tem que discutir sobre relacionamentos. É igual casamento. Na Califórnia, deviam os quatro sentar para estabelecer algumas regras de boa convivência. Tipo, “Teo, todos têm que sair juntos dos picos”. “Salatiel e Carlinhos, vocês não podem decidir tudo, tem que haver consenso, pois quem os estabeleceu líder da trip? Quem os designou como maiorais e líderes?”. “Carlinhos, todos querem dirigir, pois ninguém te nomeou motorista oficial da barca”. “Quem dirigir sem prudência, ficará proibido de dirigir novamente”. “Ninguém poderá escolher as camas dos hotéis ou albergues. Quem ainda não dormiu numa cama bacana, tem o direito do melhor quarto na próxima”. Tudo parece uma grande bobagem, mas está provado por essa história que não é. Mas também sei que isso não é nada fácil, pois quem se dispõe para discutir relação, se dispõe para ouvir coisas desagradáveis de si mesmo. Quem mais está disposto?

Aconselho que todos saibam ouvir dos outros coisas a respeito de si mesmo, ainda que seja muito duro. Pois com o tempo, com a ajuda do Espirito Santo, você acabará descobrindo que realmente não é tão bom, tão santo quanto pensa. A bíblia nos ensina que assim como o ferro se afia com ferro, assim é o homem com seu amigo. Amizades de verdade são chocantes em primeira instância, mas depois se torna um passeio pelo mundo. Ninguém é melhor que ninguém, mas se você não concorda com isso, sinto em lhe dizer, você precisa que Deus segure um espelho à sua frente. Cuidado, você irá se surpreender.

Pelo que sei, ainda não estão todos resolvidos.

Espero que um dia possam fazer isso, o mais breve.

Minha pergunta, quem é o culpado?

vlw,

Tropical

P.S.: Até hoje não entendi porque o Teo não fez com os outros dois o mesmo que fez com Beto – sentou para esclarecer as dúvidas e, desarmado, pedir desculpas. Também não entendo por os outros dois também não procuram mais o Teo. Será que eles não se sentem culpados ou é pelos mesmos motivos do Teo?


Ainda sem comentários.

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