Não pedi para correr


Não pedi para correr.

Não pedi para começar a correr.

Mas fui naturalmente forçado.

Comecei sem saber absolutamente nada, apenas sentia fome e sabia de quem e onde poderia me saciar.

Quando comecei, não conhecia ninguém.

Reconhecia apenas um cheiro.

Sentia-me seguro.

Não sabia nada!

Sem querer, comecei a correr.

Não me importava se havia mais alguém.

Não havia competição, vaidade, maldade, apenas um mundo desconhecido e esquecido.

Bem rapidamente me aperfeiçoei.

A mudança era absurdamente notável.

Gostava de repetir as mesmas coisas, dezenas, centenas de vezes sem que elas me irritassem ou me machucassem.

Não era apenas um mero treino, mas o prazer do descobrimento que me instigava, a graça da vida exuberante.

Um casal me ensinava.

O homem era mais forte.

A mulher mais cuidadosa e paciente.

Passava a maior parte do tempo com ela, mas ele era o que eu sempre quis ser.

Prefiro os dois juntos.

Logo minha corrida era incansável e extremamente deliciosa. Sem preocupações eu corria como se nunca fosse parar.

Parar?

Quero correr como meu Pai. Quero ser igual a ele.

Mesmo com meu físico em desenvolvimento, em pleno crescimento, começaram a me privar de algumas coisas. Justificavam dizendo que era para eu correr melhor e continuar correndo bem.

Não entendia!

Desobedeci muito!

Mas fui ensinado sobre as vantagens da obediência.

Tive que obedecer – ainda que não concordasse.

Logo descobri como poderia correr escondido.

Sem muita noção do perigo, fazia o que não devia.

Certas coisas serviram como aprendizado.

Outras, apenas machucados.

Mas nada que me parasse naquele momento. Pois ignorava as futuras consequências.

Parecia que nunca chegaria.

Minha corrida se tornou muito prazerosa.

Facilmente eu corria.

Meu coração estava mais forte que meus músculos. Eles não reclamavam.

Assim como eu, eles também ignoravam.

Passei muita gente, muitos lugares, muitas coisas. Não conseguia correr mais devagar. Aumentava minha velocidade com muita facilidade. Me sentia como um predestinado. Ora ou outra era arrebatado e me via em lugares onde nunca havia passado. Viajei pelos continentes da terra. Fui até a Europa e vi muitos jovens corredores, todos velozes com o mesmo desdém.

Passei pelo continente Africano. Não gosto de correr sob sol escaldante. Só que lá, todos correm bem. Objetivo eles têm. A meta é a justificativa: matar [a fome e a sede]. Querem justiça e uma paternidade – liberdade.

Passei pelo Novo Mundo. Encontrei jovens inteligentes e talentosos, esforçados, obstinados. Gostei deles, mas eles correm demais. Ainda tenho fôlego para alcançá-los. Quero correr com eles.

Mas a Asia, ela me assusta, não gosto de correr reservado. Deles, a meta não é justificativa, matar [uns aos outros]. Talvez esse desafio não seja meu. Preciso estudar mais e saber qual o tênis que devo usar. Fiquei sabendo que os corredores de lá são os mais preparados.

América é meu terreno. Não conheço tudo, talvez bem pouco, porém mais que os outros. Aprendi a correr influenciado pelos daqui. Mas quero uma outra influência além daqui. Não a que os ensinou a correr, mas a que os fez para correr.

Por esse lugares me vi correndo como que flutuando. Meus batimentos diminuíam diante do barulho das grandes multidões de jovens cheios de ritmo. Quero ser percebido por eles, porém a experiência me fez enxergar quão medíocre é a minha passada. Preciso melhorar a corrida, não a velocidade. Quero ser um com Ele(s). Quero correr com eles.

Comecei a sentir alguns sinais dos meus exageros do passado, da minha ignorância e desobediência. Hoje preciso ser mais cauteloso, pois caso seja exagerado, dói. Ficaram algumas sequelas. Nada que Ele não possa resolver. Mesmo assim não quero parar de correr. Não completei a carreira. Minha corrida se tornou mais experiente. Sei dosar melhor minha passada, meu ritmo. Quando me canso demais, diminuo para oxigenar meu cérebro ao invés dos músculos. Logo relembro donde devo chegar. Começo novamente a flutuar. Nesse momento é que minhas pernas descansam sem parar de se movimentar. Minha corrida ganha ritmo e a graça de uma dança. A música destaca-se como uma profecia. Tudo nesta cena é harmonioso. Volto a enxergar o que meus olhos não podem ver como uma promessa do que ainda vai acontecer.

Preciso correr.

Tropical

P.S.: Estava correndo.

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One Comment em “Não pedi para correr”

  1. Gezz 28 de Abril de 2012 às 14:08 #

    Estava pensando o que havia acontecido…
    fazia um tempinho que não via texto novo…
    Legal esse aqui, apesar de não ser o post recente…

    Enfim… Espero que esteja bem!!

    Um abraço!!!

    Fique na Paz!

    Seu irmão menor
    Gessé =)

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