Deus nos prometeu, nada…


Me incômodo ao ler o texto que Tiago – o meio irmão de Jesus – escreveu. De alguma forma esse texto me remete para fora das organizações. Como se eu tivesse mascarando o serviço eclesiástico para se parecer com piedade, compaixão…

Mas isso é comigo.

Não gosto muito da idéia de ter de abrir mão do conforto das estruturas. Para mim, apenas, parece ser fácil demais exercer a fé participando de cultos ou de ministérios dentro de igrejas locais. Mesmo pregando já perdi aquela sensação de estar cumprindo meu papel. A pregação também se tornou fácil demais, ainda que seja útil e necessária. 

O tal texto de Tiago diz que se uma fé não for acompanhada de ações é coisa morta. Ele faz uma clara distinção entre as obras da lei e as obras da fé. Tiago mostra que são mundanos quando favorecem aos ricos e, repreende os mesmos por discriminarem os pobres – dentre algumas outras coisas.
Porém, quando transferimos este discurso para nossa realidade e cultura, quais seriam as “obras da lei”? Por mais judaizante que alguém possa ser, ainda ficará muito distante do que era um judeu primitivo, senão pelo espírito da própria religiosidade e também do mundanismo. É este mesmo espírito que cobra de crentes modernos a freqüência e participação de ministérios locais para que estes sejam abençoados. Dizem, nas entre linhas: “se não for do nosso jeito, Deus não poderá justifica-lo”. Será que a justificação está em o freqüentarmos ou participarmos periodicamente das atividades de nossa igreja local?
Vejo nessas atividades uma parte de um pacote e não como algo completo. Mesmo assim, que nada tem a ver com justificação pelo fato de fazer parte disso. Compreendo a importância da participação nessas atividades eclesiásticas e, também as vejo como algo que exige de nós certo exercício de fé. Fazer parte de um departamento, por exemplo, exige de nós o mínimo de abnegação. Afinal poderíamos ir ao cinema durante esse tempo que estamos na “igreja”, mas abrimos mão para cumprir nosso compromisso de membro. Além disso, também precisamos nos relacionar com outras pessoas que pensam diferente; para isso precisamos exercitar nossa fé.
Da minha parte, eu sei o quanto é confortável e gostoso trabalhar dentro de uma igreja local. Sei a segurança que isso representa e o prazer que isso me deu. Sei que isso pode me fazer parecer mais importante do que realmente sou e o quanto é gostoso conviver com o grupo de amigos que conquistei ao longo dos anos de convivência. Sei que uma igreja local pode ser a extensão de minha própria casa e também meu porto seguro. Mas o contra senso disso é que pertenço àqueles que foram chamados para fora. Fomos chamados para fazer a diferença além do cercado das quatro paredes, da cultura religiosa, da nossa cidade, do nosso grupo de amigos, etc.
Tiago escreveu que para Deus, o Pai, a religião pura e verdadeira é esta: ajudar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e não se manchar com as coisas más deste mundo. Que Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e para possuírem o Reino que ele prometeu aos que o amam. No entanto, pelo que me parece, naquela época desprezavam os pobres. Pergunto-me, será que somente naquela época que desprezavam os pobres? Infelizmente eu vejo que hoje em dia não é diferente. Olhamos para as pessoas e as enxergamos como se fossem árvores. Olhamos para os pobres que ficam mendigando nas esquinas, e logo os julgamos como enganadores ou vagabundos. Não nos compadecemos. Entregamos nossos dízimos para garantir nossa prosperidade e com isso não entendemos o paradoxo desequilibrado – se meu irmão estiver necessitado, não poderei dizer que sou próspero mesmo tendo de tudo.
Eu ainda pergunto, será que as obras que justificam a fé são as atividades e compromissos que tenho na minha igreja local? Será que o simples fato de deixar de ir ao cinema para participar de uma reunião de departamento da minha igreja poderá ser considerado como obra que justifica a fé? Será que posso considerar um evento que realizei na igreja local como sendo o exemplo máximo de fé? Será que quando Tiago falou de fé e obras ele se referiu a atividades eclesiásticas?
Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé se ela não vier acompanhada de ações? Será que essa fé pode salvá-lo? Por exemplo, pode haver irmãos ou irmãs que precisam de roupa e que não têm nada para comer. Se vocês não lhes dão o que eles precisam para viver, não adianta nada dizer: “Que Deus os abençoe! Vistam agasalhos e comam bem.” Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta. Mas alguém poderá dizer: “Você tem fé, e eu tenho ações.” E eu respondo: “Então me mostre como é possível ter fé sem que ela seja acompanhada de ações. Eu vou lhe mostrar a minha fé por meio das minhas ações.”
O conceito de fé que as pessoas têm aprendido é esse: “Fé é aquilo que coloca Deus em movimento (em meu favor)”. Mas agora irei lhes apresentar um novo conceito de fé que talvez vocês nunca tenham ouvido: “Fé é aquilo que nos coloca em movimento (em favor do próximo)”.
Uma boa frase de tal evangelista Luis Palau: “A igreja é como esterco. Se empilharmos o esterco num só lugar vai cheirar mal. Espalhe o esterco pela terra e ele enriquece o solo e faz crescer. Hoje, quando procuro uma igreja, procuro uma que entenda a necessidade de olhar para fora.”
Ai está o perigo de gostarmos demais da comodidade que uma igreja local poderá nos oferecer. Digo que todas as igrejas locais devem, ao menos, cuidar dos seus membros, cuidar de seu próprio bairro, e se não houver necessitados, deve procurar ajudar em outros lugares. Digo que esse papel não é apenas da instituição local, mas de cada indivíduo que entendeu a graça de nosso Senhor Jesus Cristo.
James Houston, professor de teologia da espiritualidade, diz que quando caímos nessa rotina de fazer as coisas – de tentar construir uma vida de significado e segurança através de histórias e rotinas aprovadas por Deus, temperados com finais de semanas divertidos e interlúdios eróticos ocasionais, sem lidar, em primeira mão, com fé e obediência, e sem lidar com Deus – o nome genérico para isso é “religião”. É claro que ninguém arriscaria a dizer que isso é uma vida sem Deus. A questão maior é onde, o Deus que está aí, tende a ser mais um pano de fundo e recurso – uma Qualidade ou um Ser que oferece as idéias e a energia que eu controlo, organizo e uso como quiser. A real é que todos nós fazemos isso; alguns mais, outros menos.
Cresci participando, pelo menos umas duas vezes por ano, de cultos de missões onde decoram o salão com bandeiras de diversos países e fazem apresentações de algumas culturas estrangeiras para representar algumas nações da terra. Mas hoje eu entendo que a missão da igreja se estende às necessidades da vizinhança.
“Estou dolorosamente ciente de que a espécie de igreja que descrevi, a igreja ideal pela qual procuro, é a exceção e não a norma. Muitas igrejas oferecem mais entretenimento do que adoração, mais uniformidade do que diversidade, mais isolamento do que alcance para fora, mais lei do que graça. Nada perturba mais a minha fé do que a decepção que sinto com a igreja invisível… Chego a ver na humanidade falha da igreja o paradoxo de um sinal de esperança.” Philipe Yancey
Deus nos prometeu nada, nada nos faltará.
Valeu galera, leiam o livro de Tiago. Ele é chamado pelos eruditos como o livro da sabedoria no NT. Como provérbios do AT.
Tropical

2 comentários em “Deus nos prometeu, nada…”

  1. JDC 24 de Outubro de 2008 às 11:26 #

    >Ae Tropis! Blz? Gostei muito do texto e creio realmente que hoje as nossas igrejas de uma forma geral precisam de um “chacoalhão” para acordarem para a necessidade do próximo, ver que não podemos formarmos clubes ou associações fechadas, onde somente pessoas do nosso “grupinho” possam estar participando. A igreja somos nós e fomos chamados para levar vidas a se reconciliarem com Deus. Somos Embaixadores de Cristo, e geralmente um Embaixador não fica no seu próprio País, mas sai e representa o seu País em outros lugares. Ser Embaixaor de Cristo é isso: representá-Lo onde quer que estejamos, onde quer que sejamos enviados, seja no bairro, seja no município, seja nas nações. As vidas sempre devem ser mais importantes que “coisas”, “posições” e até mesmo ministérios. Mas, mesmo assim, infelizmente nós seres humanos, nos apegamos a certas coisas, certas rotinas, e certas acomodações e muitas vezes esquecemos que somos peregrinos, viajantes que passam por este mundo com uma missão: Pregar o Evangelho, amarmos a Deus e uns aos outros como Cristo nos amou. Valew, este texto me levou novamente a refletir sobre os meus conceitos.

  2. JDC 24 de Outubro de 2008 às 11:27 #

    >Esque ci de mencionar que sou eu o Chris!!!

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