Breve relato de uma caminhada histórica


Realmente faz um bom tempo que não escrevo a vocês.Que não significa que deixei de escrever. Tenho lido algumas coisas interessantes sobre a história da igreja desses dois últimos séculos. Isso tem me ajudado a montar algumas peças de um quebra cabeças, mas acredito não conseguir termina-lo até o final de minha vida.

Hoje eu entendo que foi de grande valia ter nascido, criado e ensinado de acordo com os padrões protestantes da igreja histórica no Brasil. Tive o privilégio de viver até o final de minha adolescência (entre 70 e 80), dentro do contexto da igreja tradicional e histórica. Que me deu a oportunidade de ver de perto a chegada do movimento neo pentecostal (originário do pentecostalismo), que rapidamente ganhou seu próprio espaço, conquistou novos convertidos e que atualmente é o maior seguimento evangélico do Brasil.
Passei por poucas denominações. Permaneci na Igreja Metodista até meus dezoito anos de idade. Depois, por acaso, cheguei na igreja sensação da época, a Renascer; pelo fado deles terem absorvidos a nossa pequena reunião de surfistas cristãos – já chamada de Bola de Neve. Porém, antes que a mesma também virasse uma nova denominação neo pentecostal, insatisfeito com os grandes desvios, fui parar na Cristo Salva. Esta foi para mim uma igreja muito boa.
Estabelecer uma comunidade local equilibrada não é um desafio novo.
E desde que esse mais novo seguimento evangélico ganhou forca, passei a ouvir que o mais próximo do ideal seria conciliar a organização, o zelo pela Palavra dentre muitos outros valores das igrejas tradicionais com o “avivamento” neo pentecostal.
Só que pelo visto, esse tal ideal que muitos sonhavam, seria também, nada mais que um novo “neo” do mesmo.
Fico triste com o rumo que nós tomamos. Afinal há muito tempo tenho percebido o desprezo pelos valores e princípios bíblicos. Pior é saber que a história se repete. Que pela falta de pesquisa, meditação na Palavra e confrontação bíblica, o critério quase que inexiste.
Farei um breve relado do que tenho percebido ao longo desses anos. Hoje em dia existe uma grande desvalorização do ensino bíblico. Este deu lugar a experiência pessoal. Tratam a bíblia como um livro de histórias e experiências religiosas, que começa com Israel no Velho Testamento, e que termina com a humanidade, nos dias atuais. Dá-se mais valor as experiências sentimentais e emocionais, do que a transformação do caráter de cada individuo. Há um grande desprezo pela revelação pronta a mão, a bíblia, pois esta deu lugar aos novos líderes profetas. Também é comum a grande multiplicação de títulos como bispos e apóstolos. Ocorreu também a verticalização da estrutura hierárquica da igreja, os lideres fortes se colocaram no topo da pirâmide – teve um tempo em que o relacionamento dentro da igreja local era horizontal. Consequentemente trouxeram de volta o messianismo e o clericalismo, pois esses lideres de grandes ministérios são incontestáveis; e sua palavra é a palavra de Deus; e se alguém se opuser a isso cai em maldição por cometer o pecado da rebeldia contra um ungido de Deus. Eles tomam decisões sozinhos de questões financeiras e doutrinarias sem nada prestar contas, nem mesmo de sua vida pessoal – a ninguém. Não existe investimento missionário, mas sim uma grande luta por entrar nos meios de comunicação – custe o que custar. Como isso representa um investimento de altíssimo valor financeiro, passaram a valorizar ainda mais a tão conhecida – pouco entendida entre a maioria – teologia da prosperidade que valoriza o status terreno mais do que a vida na eternidade, onde, segundo Jesus, é que se encontram os tesouros incorruptíveis. Nessa nova onda Deus se tornou escravo de suas próprias promessas e por esse motivo, se fizermos a nossa parte, ele será obrigado a me recompensar. Por isso palavras como eu reivindico e determino, viraram comuns em nosso meio. Assuntos como dízimos, ofertas, votos, desafios de fé, campanhas de prosperidade financeira e libertação, passaram a ser mais importantes, muito mais do que salvação em Jesus Cristo e a justificação pela fé. Os prédios, cada vez mais suntuosos, são chamados de templos e casa de Deus. Figuras e objetos usados pelo povo de Israel no Antigo Testamento se tornaram amuletos de sorte – objetos ungidos como lenços, rosas, cálices, sal grosso, cajados, anéis, broches, etc. Santificaram o que é profano e profanaram o que é santo. Investe-se mais ai do que em famílias. Causas sociais como a pobreza, saúde e educação também deixaram de ser importantes para a igreja. Percebi também que os idosos não têm vez, pois a maioria dos lideres são entre vinte e trinta anos de idade. “Da graça decaíram” para dar lugar a justificação pelas obras ou desempenho de sucesso.
Enfim, a lista poderia ser maior ainda. Mas é melhor parar por aqui.
Como escreveu Philip Yancey, “graça significa que não há nada que possamos fazer de para Deus nos amar mais – nenhuma quantidade de renuncia, nenhuma quantidade de sofrimento recebido em seminários e faculdades teológicas, nenhuma quantidade de cruzadas em beneficio de causas justas, nenhuma quantia de dízimos, ofertas ou coisa do gênero. E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos – nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar.”
Porém esses novos lideres diriam que concordam com essa definição, mas também diriam que essa graça se aplica somente a salvação do individuo, e no que diz respeito as bênçãos, e necessário que façamos a nossa parte para recebermos de Deus o bem merecido.
É justamente por esses motivos que tenho dito que não darei continuidade a esse sistema que vigora. Confesso que estive bem próximo e me senti muito atraído a tudo isso, porém ao mesmo tempo me sentia um traidor de minha própria consciência e da própria Palavra. Decidi viver como um marginal para o sistema. Penso bastante em como será a próxima geração. Não somente meus filhos, mas os filhos dos meus filhos. Não darei continuidade a isso. Não serei um administrador desse sistema.
Como escreveu Jürgen Moltmann em seu livro Teologia da Esperança:
“Deus elevou o homem e lhe concedeu perspectiva de liberdade e amplidão, mas o homem fica para trás e renuncia. Deus promete uma nova criação de todas as coisas em justiça e paz, mas o homem faz e age como se tudo permanecesse no velho e antigo. Deus o faz digno de suas promessas, mas o homem não confia naquilo que lhe e proposto. Esse é o pecado que mais ameaça o crente – não o mal que ele faz, mas o bem que deixa de fazer; acusam-no não as suas más ações, mas as suas omissões. Acusam-no de falta de esperança; pois os assim chamados pecados de omissão se fundamentam todos na desesperança e na pouca fé.”

Esse assunto é bem longo, mas por enquanto isso basta.

Valeu

Paulo David Muzel Jr – Tropical

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